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quarta-feira, 3 de julho de 2024

''Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos / frente ao precipício / e cair verticalmente no vício''


Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com
fome
porque assim como assim ainda há muita gente que
come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de
muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do
peludo
à saída da pastelaria  e lá fora – lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny

domingo, 11 de fevereiro de 2018

''Uma luta grande e pessoal contra o céu que tínhamos em cima (e era interessante não perder a batalha).'' Cesariny

AUTOGRAFIA, com Mário de Cesariny (Miguel Gonçalves Mendes, 2004)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A Ghost Story, obra-prima do cinema de terror contemporâneo.

[que, ainda por cima, inclui um monólogo genial do WILL OLDHAM (AKA Bonnie Prince Billy) que tem de ser escutado voltando também a um dos monólogos de CESARINY em Autografia (2014), filme de Miguel Gonçalves Mendes. Quis o acaso que eu visse os dois filmes de seguida e juro que estes dois falam um para o outro.]




 A Ghost Story, David Lowery, 2017



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

como amantes / de olhos fechados / e lâmpadas nos dedos / e na boca

A Ghost Story, David Lowery, 2017

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes    loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem 

Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina    realmente    os objectos 
os objectos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos    e na boca 

Mário Cesariny, in "Pena Capital" 

quarta-feira, 11 de março de 2009

Post com café e cigarros.





I stay at the bar, alongside two other alone strangers. I see Nora and La Chihuahua and greet them in the distance. Eva comes down from the dark floor above, an elderly gentleman follows her. Nora sees her in the stairs and says – “You fucking Eva, did you do it two times? Eva jokes, and answers back “No, four”, she leaves her purse on a table and goes to the toilets, the gentleman washes his hands, she comes back and rinses her mouth (her oral caressing abilities are well known and have made Eva famous). Alcohol and sex, things around here can be summed up in those two words.
So what brings me here, to this small sanctuary of men and women over-enthusiastic about booze and lust? Why go to “La Apestosa” (the Smelly one) instead of any other place?

“La Apestosa” - José Luís Cuevas


O café começaria a encher por volta das 10 da noite. A essa hora iniciar-se-ia o habitual desfile de rostos maquilhados, de poses inesperadas, de gritos e gargalhadas, de gestos e cumplicidades que só se cumprem durante a noite. Uma outra cidade se levantava assim que o dia se recolhia. Cidade de excessos e de abismos, de sangue e de música, de drogas e de sexo, de banalidades e de beleza e de ternura e de paixão.Al Berto


Primeiras horas da manhã. Um Café está sempre à espera. As palavras demoram-se e conversam sobre a mesa usando o espaço do ar para tocar na fala dos outros, contribuindo para criar pelo cruzamento de sílabas, palavras hermafroditas de sentido fragmentário, o idioma do Café.
O burburinho gerado fala uma língua própria somente inteligível pelo empregado de mesa. Vejo-o serpentear pela sala num jogo de decifração, escutando na mesa da frente a resposta à pergunta lançada na mesa anterior, descodificando murmúrios, traço de inconfidências, irreveláveis segredos.
A moeda sob o recibo vai comprar o seu silêncio.

João Luís Barreto Guimarães


Cinco Horas

Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.

Mário de Sá Carneiro




café da baixa

eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata
(valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
- fumar, quere-se dizer.

esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro)
notável.

o Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também,
Fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e recon-
fortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)

(que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das priscas
dos outros)
aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal
condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha).

sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local
Antes andar por aí relativamente farto
antes para tabaco que para cesariny
(mário) de vasconcelos.

Mário Cesariny


O senhor Juarroz hesitava em pegar na sua chávena de café porque não conseguia deixar de pensar que não são as mãos que pegam nos objectos, mas sim os objectos que pegam nas mãos. E tal repugnava-o, pois não aceitava que uma simples chávena lhe agarrasse a mão (como o noivo impetuoso agarra nos dedos tímidos da noiva).
Por isso o senhor Juarroz em vez de agarrar na chávena ficava longos minutos a olhar para ela, de modo agressivo.
Mais tarde queixava-se do café frio.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Juarroz




Midnight Jam
JOE STRUMMER & THE MESCALEROS

(Coffee and Cigarrettes)

sábado, 14 de julho de 2007

"Já não queremos ser Pessoa,

queremos ser Cesariny!"passagem dos elefantes


Elefantes na água optimistas à solta optimistas à solta elefantes na árvore elefantes na árvore optimistas na esquadra optimistas na esquadra elefantes no ar elefantes no ar optimistas em casa optimistas em casa elefantes na esposa elefantes na esposa optimistas no fumo optimistas no fumo elefantes na ode elefantes na ode optimistas na raiva optimistas na raiva elefantes no parque elefantes no parque optimistas na filha optimistas na filha elefantes zangados elefantes zangados optimistas na água optimistas na água elefantes na árvore

MÁRIO CESARINY

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000

''De poesia e filosofia e literatura e outras merdas já eu estou cheio dos pés à cabeça.'' Cesariny




AUTOGRAFIA, com Mário de Cesariny (Miguel Gonçalves, 2004)

''Algo, de facto, deve ter acontecido / porque nada acontece, a não ser o costume, / amor e estrume''


Egoïsme - Francis Picabia 
Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.
Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.
Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.
Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

CESARINY