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quarta-feira, 3 de julho de 2024

''Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos / frente ao precipício / e cair verticalmente no vício''


Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com
fome
porque assim como assim ainda há muita gente que
come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de
muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do
peludo
à saída da pastelaria  e lá fora – lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny

segunda-feira, 1 de julho de 2024

palavras diamantes palavras nunca escritas / palavras impossíveis de escrever

 



Entre nós e as palavras há metal fundente entre nós e as palavras há hélices que andam e podem dar-nos morte violar-nos tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo entre nós e as palavras há perfis ardentes espaços cheios de gente de costas altas flores venenosas portas por abrir e escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício Ao longo da muralha que habitamos há palavras de vida há palavras de morte há palavras imensas, que esperam por nós e outras, frágeis, que deixaram de esperar há palavras acesas como barcos e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição Entre nós e as palavras, surdamente, as mãos e as paredes de Elsenor E há palavras nocturnas palavras gemidos palavras que nos sobem ilegíveis à boca palavras diamantes palavras nunca escritas palavras impossíveis de escrever por não termos connosco cordas de violinos nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar e os braços dos amantes escrevem muito alto muito além do azul onde oxidados morrem palavras maternais só sombra só soluço só espasmo só amor só solidão desfeita Entre nós e as palavras, os emparedados e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

''Uma luta grande e pessoal contra o céu que tínhamos em cima (e era interessante não perder a batalha).'' Cesariny

AUTOGRAFIA, com Mário de Cesariny (Miguel Gonçalves Mendes, 2004)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

A Ghost Story, obra-prima do cinema de terror contemporâneo.

[que, ainda por cima, inclui um monólogo genial do WILL OLDHAM (AKA Bonnie Prince Billy) que tem de ser escutado voltando também a um dos monólogos de CESARINY em Autografia (2014), filme de Miguel Gonçalves Mendes. Quis o acaso que eu visse os dois filmes de seguida e juro que estes dois falam um para o outro.]




 A Ghost Story, David Lowery, 2017



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

como amantes / de olhos fechados / e lâmpadas nos dedos / e na boca

A Ghost Story, David Lowery, 2017

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes    loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem 

Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina    realmente    os objectos 
os objectos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos    e na boca 

Mário Cesariny, in "Pena Capital" 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

''O outro é o nosso espelho.'' (Cesariny)


AUTOGRAFIA, com Mário de Cesariny (Miguel Gonçalves, 2004)

sábado, 13 de dezembro de 2008

O chapéu de Tchékov


O chapéu de Tchékov
ALEXANDRE O'NEILL (1979)

tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro

gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra

gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça

tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão




Poeta Castrado, Não!
ARY DOS SANTOS

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
--- é tão vulgar que nos cansa ---
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
--- a morte é branda e letal ---
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
--- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
--- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


"Eu, Sempre..."
CESARINY (EXCERTO DE "VIRGEM NEGRA")

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

domingo, 27 de fevereiro de 2000

numa perpétua aurora surrealista / com a qual não podemos contactar

Esfir Shub by Aleksandr Rodchenko 

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes   loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina   realmente   os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos   e na boca

                 Mário Cesariny

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2000

Noa Noa Surrealist Editions, by Cesariny


via ANTÓNIO M. COSTA
''Na segunda metade dos anos 80 Mário Cesariny publicava umas folhas policopiadas, com colagens, poemas, traduções, etc., que ele próprio editava como Noa Noa Surrealist Editions, com tiragens de “cincoenta” cópias, numeradas e assinadas, e que oferecia/enviava a amigos (escritores e artistas surrealistas) um pouco por todo o mundo (daí serem bilingues). Tive a sorte e o privilégio de ter sido o “fotocopiador” de algumas dessas “edições”. No final, o Mário oferecia-me uma dessas cópias ou uma cópia de artista. Esta que aqui reproduzo, e partilho como homenagem ao Mário no dia que se comemora o seu 90º aniversário, é a edição N.4., com data de Abril de 89, cópia 12/50. Era uma homenagem do Mário à escritora e artista surrealista Ithel Colquhoun, que morrera um ano antes, em Abril de 1988.'' A.M.C.

''De poesia e filosofia e literatura e outras merdas já eu estou cheio dos pés à cabeça.'' Cesariny




AUTOGRAFIA, com Mário de Cesariny (Miguel Gonçalves, 2004)

''Algo, de facto, deve ter acontecido / porque nada acontece, a não ser o costume, / amor e estrume''


Egoïsme - Francis Picabia 
Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.
Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.
Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.
Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

CESARINY