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segunda-feira, 22 de junho de 2020

Defende-se à dentada / da vida proletária, aristocrática, burguesa

Diane Arbus, Masked Child with a Doll, N.Y.C., 1961

O POETA EM LISBOA, de
(1931-1988)
.
Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
.
Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.
.
Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha — numa música secreta, inaudível.
.
Pede um cigarro. Fuma.
labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
.
Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
.
Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.
.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.
.
Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.
.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Metamorfose.



“Sinto-me mal. O meu sexo acaba de ser determinado.
MARIA GABRIELA LLANSOL




Irving Penn

Diane Arbus


Irving Penn