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sábado, 18 de janeiro de 2020

Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.



«Às vezes não te compreendo bem.»
«Sou uma ilha pequena, Paula.» Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim…
A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. «Todos o somos, não és original.»
«Mas eu sou aquela ilha.»
Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, e voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.
«Mas a tua vida é que é uma ilha, não tu.»
«Sim, a minha vida», concordou Jô. «Mas o que sou eu sem a minha vida, o que somos nós sem ela?»
«Bem, é tarde, vou deitar-me», disse Paula. «E o teu caso, na mesma?»



Maria Judite de Carvalho

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Vida presa por um fio.


sábado, 18 de agosto de 2018

''NÃO DEU NÃO DEU, adiante''



quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

(todo o calor é de mais dentro que vem)

A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951

RETRATO
Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem

Rui Caeiro

domingo, 10 de janeiro de 2016

''a vantagem que há em laborar no centro da terra''


Um poema de Rui Caeiro


Um corpo que se agarra a outro
e ora o acaricia ora o penetra

E nem o tecto lhes cai em cima
nem eles foram pelo chão abaixo

É a vantagem que há em
laborar no centro da terra


O Quarto Azul e outros poemas, Lisboa: 
Letra Livre, Colecção Eros Ortográficos, 2011, p. 40.