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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

''I will not speak, I will have no thoughts''



In the blue summer evenings, I will go along the paths, 
And walk over the short grass, as I am pricked by the wheat: 
Daydreaming I will feel the coolness on my feet.
I will let the wind bathe my bare head.
I will not speak, I will have no thoughts: 
But infinite love will mount in my soul; 
And I will go far, far off, like a gypsy, 
Through the country side-joyous as if I were with a woman. 

sábado, 5 de maio de 2018

''ter deixado de respirar para todo o sempre / e continuar a pintar os lábios de vermelho / como se isso fosse possível num deserto sem beijos''



ODE RIMBAUD

eu sou absolutamente moderna, Rimbaud.
sei que nunca pensaste que uma rapariga de Portugal
se tornasse absolutamente moderna.
o caso é que nunca deitei o amor pela janela
mas a janela deitou-se pelo amor dentro.
não toco piano, não falo francês, nem faço fru-fru.
sou absolutamente moderna, Rimbaud.
tenho telemóvel, tenho blog, tenho carro
e até uma paixão que já não é platónica
agora para se ser absolutamente moderno
diz-se virtual, Rimbaud.
perdoa-me
dou-te a minha perna
um prato com bolinhos de canela
para te lembrares do tempo dela.
perdoa-me o sarcasmo, Rimbaud
o fatalismo azedo de rapariga absolutamente moderna
constructo humano, já não ser.
perdoa as minhas pernas a engordar de noite para noite
o fumo da chaminé comum do prédio
a minha imensa falta de árvores
a minha necessidade que devora um poema para o deitar fora.
perdoa-me não ter entendido uma única coisa que disseste
mesmo na tradução do Cesariny que é livre e bela
como uma rosa francesa desgrenhada em solo português.
perdoa-me escrever telegraficamente 
ter deixado de respirar para todo o sempre
e continuar a pintar os lábios de vermelho
como se isso fosse possível num deserto sem beijos.
perdoa-me não ter conseguido manter a tua palavra
perdoa-me ter falhado e ser erro.

p.s. - se quiseres regressar a terra
como o Cristo da literatura do não
tomas café comigo?


Ana Salomé

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ciméria






polaroids de Patti Smith



''Nenhum dos sofismas da loucura, - a loucura que se encarcera, - foi esquecido por mim: poderia repeti-los todos, possuo o sistema. Minha saúde viu-se ameaçada. Sobrevinha o terror. Caía no sono durante dias seguidos e, uma vez desperto, continuava os sonhos ainda mais tristes e, por um caminho cheio de perigos, a minha fraqueza conduzia-me aos confins do mundo e da Ciméria, pátria das sombras e dos turbilhões.''
Rimbaud*, Uma Estação no Inferno

* leio o Rimbaud como o Mexia ouve os Smiths.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

forever no more.

Iluminações, Rimbaud

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sair da Caverna, II.



Enfim, ó felicidade, ó razão, eu separava do céu o azul, que é negro, e vivi, centelha dourada da luz natureza. Em minha alegria, eu assumia uma expressão tão burlesca e alucinada quanto possível:

Ela foi reencontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar
Ao sol misturado.

Minha alma eterna,
Segue teu rogo
Contra a noite pura
E o dia em fogo.

Te libertas então
Dos votos humanos,
E ímpetos vãos!
E voas segundo...

Jamais a esperança,
Jamais orietur.
Ciência e paciência
O suplício é seguro.

Tampouco futuro,
Brasas de cetim,
Vossa paixão
É a obrigação.

Ela foi reencontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar
Ao sol misturado.

Tornei-me uma ópera fabulosa: vi que todos os seres têm um fatalismo da felicidade: a ação não é a vida, mas uma forma de dilapidar alguma força, um enfraquecimento. A moral é a debilidade do juízo.

Parecia-me que a cada ser devem ser dadas outras vidas. Este cavalheiro não sabe o que faz: é um anjo. Esta família é uma ninhada de cães. Diante de vários homens, falei em voz alta com um momento de uma de suas outras vidas. — Assim, amei um porco.

Nenhum dos sofismas da loucura, — a loucura de atar, — foi esquecido por mim: eu poderia repeti-los todos, tenho o sistema.

Minha saúde esteve ameaçada. O terror me invadia. Caía em sonos de vários dias e, desperto, continuava os mais tristes sonhos. Estava maduro para a morte, por uma senda de perigos minha fraqueza me conduzia aos confins do mundo e da Ciméria, pátria da sombra e dos turbilhões.

Tive de viajar, dissipar os encantamentos reunidos em meu cérebro. No mar, que amava como se devesse purificar-me de uma mancha, eu via elevar-se a cruz consoladora. Eu fora amaldiçoado pelo arco-íris. A Felicidade era minha fatalidade, meu remorso, meu verme; minha vida seria sempre excessivamente imensa para ser dedicada à força e à beleza.

A Felicidade! Seu dente, doce até a morte, me advertia do canto do galo, —ad matutinum, no Christus venit, — nas mais sombrias cidades.

É estações, ó castelos!
Qual a alma sem defeitos?

Fiz o mágico estudo
Da ventura, que ninguém elude.

Saudemo-la, cada vez
Que cante o galo gaulês.
Ah! Não mais ambições:
Pus minha vida em suas mãos.

Este encanto prendeu-me alma e corpo
E dispersou os esforços.

Ó estações, ó castelos!

A hora de sua fuga, enfim!
Será a hora do meu fim.

Ó estações, ó castelos!

Isto passou. Hoje eu sei saudar a beleza.

Excerto de "Delírios", Cap. II "A alquimia do verbo", Rimbaud, tradução de Janer Cristaldo

quarta-feira, 18 de junho de 2008

LA FOLIE,

A FREE SOUL, CLARENCE BROWN, 1931

Chanson de la plus haute tour
RIMBAUD

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent.

Je me suis dit : laisse,
Et qu'on ne te voie :
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t'arrête,
Auguste retraite.

J'ai tant fait patience
Qu'à jamais j'oublie ;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.

Ainsi la prairie
A l'oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D'encens et d'ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Ah ! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n'a que l'image
De la Notre-Dame !
Est-ce que l'on prie
La Vierge Marie ?

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J'ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s'éprennent !


AUTOLUX

HERE COMES EVERYBODY


EVEN WITHOUT A FACE

Even without a face
I don't want to talk about it
We could be replaced anytime
Flat duration soul
Just make believe excitement
Dead but not so cold
All lazy pigs
What a way to go
Always that thing that happens
When everything's just so
You understand
We don't know what side we're on
Dreaming with our heads cut off
Half in love and underground
Most of you will not be found
Sickle raven sky
My thoughts are boomerangs
You know when you get high
Its all wrong
The system's all awry
I get up to get arrested
Every single time
We don't know what side we're on
Dreaming with our heads cut off
Half in love and breaking down
Most of you will not be found by anyone


domingo, 11 de fevereiro de 2001

Chers corbeaux délicieux!




Poema-colagem, André Breton


La Rivière de Cassis
Rimbaud


La Rivière de Cassis roule ignorée
En des vaux étranges :
La voix de cent corbeaux l'accompagne, vraie
Et bonne voix d'anges :
Avec les grands mouvements des sapinaies
Quand plusieurs vents plongent.

Tout roule avec des mystères révoltants
De campagnes d'anciens temps;
De donjons visités, de parcs importants :
C'est en ces bords qu'on entend
Les passions mortes des chevaliers errants :
Mais que salubre est le vent.

Que le piéton regarde à ces claires-voies :
Il ira plus courageux.
Soldats des forêts que le Seigneur envoie,
Chers corbeaux délicieux!
Faites fuir d'ici le paysan matois
Qui trinque d'un moignon vieux.