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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

porque o caminho mais longo, amiga / longest way round, amiga / is the shortest way home





© Jessica Candradi



LONGEST WAY ROUND


aos solavancos
moving steadily toward my fate
se um dia deus quiser
teremos tempo para discutir
como meninos ricos, na esplanada
de um café
ao pequeno almoço
a fumar do mesmo cigarro e a ver
os pobres infelizes a passar no autocarro
e vamos pensar: “céus, graças a deus que não
somos eles”
ah ah ah ah
prima dona e mulher de saltos
um dia ainda vamos ler o ulisses
mas até lá
as palavras grandes são
tostas de queijo vegan na esplanada
e batidos de hortelã e espinafres
ou então na tua mala
uma aversão antiga
uma versão antiga muito antiga
da crítica à razão pura ou então
da fenomenologia do espírito
ou então
do tractatus do outro
mas quem pensas que és

porque o caminho mais longo, amiga
longest way round, amiga
is the shortest way home
e até lá as flores não vão perfumar o passeio
mas sim
a cabeça dos fulanos do autocarro
não te julgues
o último dos moicanos
ainda terás de dar o teu lugar
à velhota bigoduda

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A montanha continua a ser / O melhor que aconteceu ao / Meu diário



Dois poemas de Mariano Alejandro Ribeiro


VOU
Para evitar a aglomeração
De shenanigans do circo
Risco os dias no almanaque
& canto aquela do
fotografei você na minha rolleiflex 
Assim foi como abandonei a escola
Com método & perícia
& virei-me para a tradução
De livros de auto-ajuda
- - -
A pensar naquela foto tua na ria
Era curioso como assim
Rolleiflexada no negrume
Da alvorada
Ainda eras sem dúvida
O príncipe pequenino
Com todos os medos que por direito
Pertencem aos poetas do século xix
& a um ou outro que ainda anda por aí
A chutar pedras pelo caminho
Quando vai trabalhar
Naqueles tempos a sorte era
Uma medalha de ouro na mão
Sermos netos dos lavradores mais volúveis
Desta terra
Era benzer-nos com os cantos
Da filosofia oriental
& quando os pegos de água doce secavam
Acabávamos no mar
Frente à ilha deserta de madrugada
Acabávamos na cafetaria
Dos trabalhadores do mercado
Empastados pelo cheiro a maresia
Sempre na cafetaria
[insira memória nostálgica e conclusiva]
Bicho, risquei do almanaque
O quadradinho de amanhã
Fico à tua espera a folhear o jornal  

ANTONIN ARTAUD  
O poema começa com o Sr. Prufrock
A aparar os pelos do nariz
Com aquela tesourinha pequena
Então vem, diz ele
Till human voices wake us
E corta imediatamente para um
Plano lato do celeiro em Paumanok
Ao amanhecer
O homem-pardo é o homem-montanha
Disso não há dúvida
Acordei hoje e soube logo
Que a inclinação da janela
Para os lados da sombra
Com os lençóis suados e tudo
Era a melhor maneira de ler
Whitman
Mesmo com colheitas fracas
E com anos de seca
A vida permanece líquida
Num jeito que diz
De dentes cerrados
«O riacho voltou a correr»
E a minha reacção é sempre
A mesma
Pões a quinta e roças-me
Gentilmente com as costas da mão
Gordinha a perna
O joelho estremece
E as aves de passagem
Nem sei o que dizer
Aqui as manhãs sem neblina
Continuam a ser a melhor altura
Para ler Antonin Artaud
No jornal antigo engatafunhado
Por dísticos orientais
Dos tempos em que aprendia línguas
Na internet
A caneta rebentou no papel
Do jornal dizia 逸れる
I’ve been lost and found
I’ve been lost and found
A montanha continua a ser
O melhor que aconteceu ao
Meu diário
Depois disso, não sobrou ninguém
Mas é assim que funciona
O ar cá em cima, é sempre assim
Já o sabíamos
O Sr. Prufrock pousa
A tesourinha
Olha-se ao espelho
Fim do poema