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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

LUZ.


"Parece que em princípio ninguém se lembra do acto de nascimento. Cientificamente, não se pode confirmar que um indivíduo que nasce tenha a percepção do seu próprio nascimento. Agora que existe uma imagem persistente, uma luz muito difusa, translúcida e que através dessa luz figuras mal definidas se debruçam sobre mim e a minha mãe... tenho uma ideia disso. Há muitos anos que tenho essa impressão."
Para José Afonso, que assim revelou o seu próprio nascimento a Luis Filipe Rocha, "tudo parte de uma luz branca, uma luz láctea (...) uma luz imanente, uma luz muito vital, como se fosse uma película, como se fosse um banho de leite (...), que me mergulhasse a mim ou que mergulhasse o universo."


in "José Afonso, o rosto da utopia", de José A. Salvador

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Celebrando Jean Vigo.




Sensibilité de Pellicule
Tradução de Luis Filipe Rocha


O olho humano, "no estado actual do desenvolvimento científico", não é mais sensível que o coração.
Esta constatação seria deprimente se nós já nada tivéssemos a esperar da película cinematográfica. O qualificativo do hipersensível atribuído à última emulsão comercial ainda não será fatal. Sem dúvida que o precedente estabelecido com o termo supervisão, que consagrou finalmente o O.K. dos O.K. da realização, nos autoriza a estar inquietos. No entanto, se os nossos confrades que possuem lojas e mercadorias podem, por interesse, como o espectador por preguiça, misticismo ou gosto pelo suicídio, iludir-se acerca das virtudes de uma etiqueta superficial e sem futuro, vós, sábios desinteressados dos laboratórios, preocupados com os factos experimentais e sem classificação preconcebida, com certeza não vos deixareis enganar no dia em que um colega vosso, tendo feito desfrisar o seu cão, lhe chamar vaidosamente "caniche".
E é a esses benfeitores do cinema que pedimos socorro.
S.O.S!
Vós que ainda ignorais que o cinema é uma arte maior, que o cinema é a vida, que o cinema é um negócio.
Não me esqueço, no entanto, que vocês deixaram as primeiras adoradas imagens epilépticas para a C.I.N.E.M.A.T.O.G.R.A.F.I.A. , e não foram capazes de, estoicamente, como o papá e a mamã, nos privarem da câmara lenta e de outros truques, para melhor nos preservarem o "cinema puro". Ainda ontem, com a descoberta do sonoro integral, tomastes a precaução de suprimir os tenores, os ministros e outros?
Sei também que a vossa cor não será anilina, o vosso relevo será um pouco insípido e a vossa televisão um "fading" conformista para o Poder.
... Mas já que nada temos a esperar das esperanças do cinema!
Não estamos nós sempre a comparar teatro e cinema; a evocar tal pintor a propósito de imagens em movimento; a falar de música - e de músicos!- para qualquer solução sonora; a examinar o campo cinegráfico através da trama de tal página literária, como se se tratasse de um mapa transparente.
Afirmamos há muito tempo que o cinema é novo para não sermos nós os velhos.
E a esta idade já só se ganha a vida na lotaria.
Quem aposta? Contra os cineastas.
A favor dos trogloditas desconhecidos da proveta.
Uns e outros são, está bem de ver, nossos semelhantes.
Mas estou a explicar-me mal. Quem aposta?
Contra os homens do cinematógrafo.
A favor da matéria revelada e posta ao acaso em frente do catalisador humano, como se costuma dizer.
Então abandonemos neste, como em todos os outros domínios, a nossa superioridade em relação às coisas, à máquina.
Deixemos pois de afirmar que tal realizador, tal vedeta, tal director de produção vai por fim . . . - por fim, o quê? ? ? - quando a crítica, cada vez mais desembaraçada, torna as páginas independentes e publicitárias tão caras.
Arrumemo-nos o mais cedo possível no simples auxiliar, e se a dureza dos tempos nos obriga a ganhar a vida, tornemo-nos então técnicos qualificados.
Técnicos qualificados mas à maneira desses Negros que participam como carregadores, sem o saberem e mau grado eles próprios, na mais bela aventura.
Encarregados de transportar para os lugares naturais dos acontecimentos espontâneos as câmaras e os gravadores, o mais difícil do nosso papel seria, diz-se, a partir de agora, não nos esquecer-mos de os voltar a procurar um pouco mais tarde, enquanto o nosso aperitivo no bar da esquina exigiria toda a nossa inteligência, a nossa vontade, os nossos dons, os nossos gostos.
Assim pensava eu nessa noite bem negra de 2 de Setembro de 1932, diante do Bullier, em Paris, onde Maxime Gorki, Willy Munizemberg, Marcel Cachin, Schwernik e Henri Barbusse, entre outros, deviam prestar contas dos seus mandatos de delegados ao Congresso Mundial contra a Guerra, realizado alguns dias antes em Amsterdam sob a presidência de Romain Rolland.
Cerca de 25000 pessoas, das quais apenas 7000 conseguiram entrar na sala.
Na rua, uma multidão de curiosos e militantes aguardava, calma, silenciosa, um pouco triste, protegida por agentes da polícia.
E às 21 horas, um apito oficial: a carga!
Os cavaleiros, cabelos em pé e abrindo caminho a sabre, a brigada especial, onde a França esconde os seus atletas. A guarda móvel, paradoxalmente, de capacete. As matracas, que não são beringelas, em madeira, com a qual nos aquecemos, nas cabeças em breve abertas. Os punhos sobre o nariz que cede; sobre o olho que pende na ponta do nervo óptico, como o relógio de bolso dos nossos pais pendurado na corrente. O pontapé freudiano no baixo-ventre das mulheres e dos homens.
"Circulem!"
21h15.
"Descansem. Contem até quatro." Não há nenhum morto a assinalar entre os "manifestantes"; nem nenhum ferido entre os agentes da polícia.
Fracos candeeiros de gás para alumiar esta cena de urbanidade!
Quando é que, à falta dos homens, a película cinematográfica deixará de sr insensível a semelhantes espectáculos?


Por Jean Vigo, Solicitado por Henri Storck para a revista belga "Kamera" e publicado em 1932.