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quinta-feira, 25 de abril de 2024

o amor é o que chega atrasado / o amor é uma diaba de palavra que ri / toda vez que olho pra ela



 o amor é um brownie

feio, duro, ressecado

comprado numa estação de subway

às três da madrugada, no escuro

com moedas tateadas

o amor é um brownie

o amor

é uma cerveja quente e já choca

não!, são duas

duas cervejas chocas e quentes

o amor é a gente

o amor é tomate de fim de feira

mais triste esmagado mais plof

que os tomatinhos da piada

atravessando a rua sem olhar

pra nada

o amor é uma fruta aguada

o amor é o filhodaputa do gordinho que chega atrasado

na fila do ônibus que leva as crianças pro orquidário

o amor é o salafrário do gordinho

que vai apanhar danado no intervalo

na hora do recreio esse gordinho

coitado

vai caber no ralo

o amor é o que chega atrasado

o amor é uma diaba de palavra que ri

toda vez que olho pra ela

toda santa vez

o amor é uma moléstia

é uma febre tifóide

miopia certeira que chega na hora

na hora

da leitura do último poema

quarta-feira, 24 de abril de 2024

''o mundo seguiu seguindo'' Leandro Durazzo

 


terça-feira, 9 de outubro de 2018

''não adianta simplesmente dizer que vai dar livros, não armas''


My Ain Folk, Bill Douglas, 1973


não adianta simplesmente dizer que vai dar livros, não armas
não faz sentido, a menos que a ideia de que livros são melhores já esteja dada
e a ideia de que livros são melhores, meus amigos, não está dada

porque livros não apelam ao imaginário da defesa - por mais que ter uma arma seja ineficiente
livros não respondem ao apelo que vem por trás dessa insegurança
num país que não lê, que elitismo escapista é esse, de simplesmente dizer "livros, não armas"?
diabos, tem gente no povo que quer arma pra matar, claro que tem, mas tem quem vá na onda porque acredita poder se defender
"não vamos dar armas, mas segurança pública eficiente"
aí sim
ora diabos

LEANDRO DURAZZO, poeta brasileiro

sábado, 30 de junho de 2018

''e o tempo que passa corrido, que curte as frutas, pimentas, cachaças, o couro da vida inteira''

The Traveller, Kiarostami, 1974

minha vó dizia abricó aos damascos secos
que uma vez provamos em meio à feira
em alguma celebração japonesa, em alguma
festa das nações. abricó é o sabor que sinto agora
mastigando lento o damasco derradeiro de minha despensa
pensando em, quando menino, ter ouvido a palavra abricó e sentido
um volteio no ouvido. abricó, o damasco, minha avó
e o tempo que passa corrido, que curte
as frutas, pimentas, cachaças, o couro
da vida inteira; a derradeira lição que nos ensinam
desde o começo
e que pouco a pouco aprendemos. não há corrida contra as horas
nem há passado esquecido.

(Leandro Durazzo, 13.02.2017)

sábado, 3 de fevereiro de 2018

: o pós-branco


etnia

Significado de Etnia

substantivo femininoColetividade que se diferencia por suas especificidades (cultura, religião, língua, modos de agir etc.), e que possui a mesma origem e história; grupo étnico: etnia cigana.[Pejorativo] Termo comumente usado para se referir à semelhança biológica, às pessoas que compartilham a mesma raça.Etimologia: Do grego éthnos, «povo» +-ia, ou do francêsethnie, «etnia»
Ainda não o vi mas tenho perguntado pelo filme a amigos. 
À questão:
- Que tal o Black Panther?
ouvi por resposta:
- É um filme étnico.
Percebendo a conotação mas desconfortável com ela, não deixo de retorquir:
- O que é um filme étnico?
- Vais perceber.
Senti que estava no interior de um diálogo inadvertidamente rascista - o que sinto quando vou à FNAC comprar discos à secção ''Músicas do Mundo''. Há o ocidente e há o resto - e parece que tudo o que não é ocidental, é étnico. E que, como indica o dicionário, há no termo étnico uma conotação pejorativa. Mas não somos também caucasianos de etnia? Porque é que nunca se ouve que dado objecto é étnico quando tem proveniência caucasiana? Quais são, então, as marcas da nossa etnicidade? É o discurso dominante, ocidentalizante? Somos, cada vez mais, de sangue traçado, de proveniência mestiça e de características raciais ambíguas e indecifráveis. Mas afinal, o que é que significa que, onde quer que estejamos, possamos assistir nos cinemas ao mesmo Black Panther?

Esclarecedor é este texto do antropólogo brasileiro LEANDRO DURAZZO (2018): 
''Ser branco não é apenas não ser negro. É exigir que não se seja negro, que não se seja índio, que não se seja mulher, que não se seja homossexual, que não se seja aquilo que o branco é, tem sido e continua se agarrando com unhas e dentes para não deixar de ser: um modelo civilizador, um modelo de violência e formatação da realidade. Ser branco é ser império e imposição sobre todos os outros grupos sociais, que são muitos. E ser branco, às vezes, é não se perceber como carne na mesma máquina de triturar gente, que o Branco faz tanta questão de manter funcionando.''