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sábado, 9 de setembro de 2023

''As paisagens alteram-se sem resolução''


F. Hodler

Os Girassóis

Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão

De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém

As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

sábado, 23 de junho de 2018

chegámos demasiado tarde ao coreto / da vida

A Que Distância Deixaste o Coração - José Tolentino Mendonça 

Que chegámos demasiado tarde ao coreto
da vida para sonhos e cantigas de libertação
revulsionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma jura redigida em esperanto
e a lei o duro eixo onde circula o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.

Resta-nos perder a última ilusão: a de que haja
ainda espaço nesta feira popular da mediocracia
para uma escrita que não seja celebração
do estridente carrossel publicitário,
dos económicos carrinhos de choque,
da barraca de tiro em que fazemos de patos.
Quando percebermos também isto, saberemos
que a Gloriosa Era da Literatura Ocidental
chegou ao fim, derretida (como sugere
o seu acrónimo) pelo aquecimento da sandice
global, que não viemos aqui para tentar reanimar o moribundo, mas alegrar um velório.
Está na rua o funeral. Ninguém nos paga
para isto, verdade, mas o morto merece.
Se queremos brilhar ainda um pouco, é agora
ou nunca. Afinemos as cordas, as lágrimas,
em dó sustenido. Vamos tentar dar o nosso melhor.
José Miguel Silva

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

{ O Pequeno Caminho Das Grandes Perguntas }



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

que as minhas mãos vazias se entusiasmem na construção da vida

O que te peço, Senhor, é a graça de ser.
Não te peço sapatos, peço-te caminhos.
O gosto dos caminhos recomeçados, com suas surpresas e suas mudanças. 
Não te peço coisas para segurar,
mas que as minhas mãos vazias se entusiasmem na construção da vida.
Não te peço que pares o tempo na minha imagem predileta,
mas que ensines meus olhos a encarar cada tempo como uma nova oportunidade.
Afasta de mim as palavras que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.
Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros.
Mesmo quando eu não posso ou quando não tenho,
sei que posso ser simplesmente.
É isso que te peço, Senhor:
a graça de ser de novo.

José Tolentino Mendonça
in Um Deus que dança. 




Karhozat (Damnation), Béla Tarr, 1988


Mère et enfant, Giuseppe Magni (início séc. XX)




Josephine Sacabo, Une femme habitée



Machiel Botman


Josephine Sacabo, Le repos

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ferrugens cintilam no mundo.

Nocturne in Black and Gold: The Falling Rocket, James Whistler

A NOITE ABRE MEUS OLHOS


No sangue do filho do homem
uma parcela trémula
um silêncio demasiado precioso
para a listagem das grandes transformações


Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado


Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquens


A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta


o amor é uma noite a que se chega só.


José Tolentino Mendonça



terça-feira, 26 de julho de 2011

P.S.



A Religiosa Portuguesa, Eugène Green, 2009
Scriptum
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Poderá a imagem descrever o rosto?
E a voz explicar a palavra?
Fala-me dos países sem os nomear.
Sabes é inútil
Repartir as águas
Diz-me apenas a altura das searas
Perto do rio
Se o vento tornou
A encher de folhas
O pátio da casa verde
e em post-scriptum
Envia notícias do homem que vende jornais
Aí em Via Rizzera.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dança, não há maior graça.



Deixa que a respiração profunda
do teu Ser aconteça. Só isso. Não
interrogues, nem busques. Deixa
que seja Deus a procurar-te. Não
caminhes. Ele virá ao teu encontro.
Não procures contemplar. Permite,
antes, que Deus te contemple. Não
rezes. Deixa que, em silêncio, Ele
reze o que tu és.

 in Um Deus que Dança, José Tolentino Mendonça



DAMNATION, Béla Tarr (1987)



SATANTANGO, Béla Tarr (1994)



Marlon Brando and Maria Schneider (REMIXED VERSION)
LAST TANGO IN PARIS, Bertolluci (1987)




RISKY BUSINESS, Paul Brickman (1983)



VIVRE SA VIE, Godard (1962)



BANDE À PART, Godard (1964)



NAPOLEON DYNAMITE, Jared Hess (2004)



8 1/2, Fellini (1963)



6 FEET UNDER (DANCE AND DREAM SEQUENCES), Allan Ball (2001)




DAYS OF BEEING WILD, Wong Kar Wai (1991)

Resgatado ao meu antigo blog. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Céu.

Cada um de nós dá, ou toma para si, corporalmente o céu (...)
Emily Dickinson, carta a Luísa e Frances Norcross, Abril 1873





De Igor Mitoraj

Ele é o meu anjo
ele vem do escuro
a embarcação em chamas
desce o canal

Se a mulher adormecida nas margens
alongasse os braços
os remos da embarcação bateriam
nos astros
(...)

José Tolentino Mendonça, “Longe Não Sabia”