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terça-feira, 12 de maio de 2020

A BANDEIRA É MINHA

 The Big Lebowski (Coen, 1998) 
Eu já lá estava.
Depois tu vieste molhada na utopia do regresso.
E ficámos os dois,
sozinhos na pradaria
com metros e toupeiras a escavar-nos a imaginação marginal.
Tricotámos girassóis e sorrisos em acrílicos Van Gogh,
cortamos a orelha esquerda à espera,
e moldámos a felicidade segundo o cálculo infinitesimal da cama.
Houve vernissages de panos turcos e
instalações automáticas nas galerias dos desejos.
Houve beberetes e bebedeiras,
prados coelho e antónios vieira.

Agora estamos os dois
sozinhos,
cada um com o seu pedaço de tecto e de sonhos,
a passearmos ao Domingo com uma cachorrada esfomeada
no complexo comercial da paciência.

 

Golgona anghel
in crematório sentimental ( guia de bem-querer)

''Já falei de Drácula que chegue.''



Não me interessa o que
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.

Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.

Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.

O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?
in Vim Porque Me Pagavam (2011: 13)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

''dirigimos à distância um código sentimental simplificado''



Vivemos submersos num plasma nutritivo
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares, 
e sonhos que não precisam de ser actualizados - 
basta apenas afinar a sua desordem estética.

Temos acesso a uma vida desprovida de acasos, 
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar. 

Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais. 
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

''cada instante é um amante / que matamos num abrir e fechar de pernas''



Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação, 
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar. 
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete. 


No horizonte lento mas seguro de uma  utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.


Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera. 


Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida, 
- olhai - 
sou o novo modelo para o fracasso.