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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Que terra indemonstrável?

António Ramos Rosa 

gosto do meu corpo quando está com o teu
corpo. É uma coisa tão nova.
Tão bem os músculos e os nervos ainda mais.
gosto do teu corpo. gosto do que ele faz,
gosto dos seus modos. gosto de sentir a espinha
do teu corpo e dos seus ossos e sua trepidante
-firme-suave natureza que eu irei
de novo, de novo e de novo
beijar, e gosto de beijar isto e aquilo de ti,
gosto de acariciar lentamente a névoa chocante
da tua pele eléctrica, e o-que-é vem
sobre a carne separada … E nos olhos as migalhas de um grande amor,
e possivelmente gosto da emoção
de seres tão nova comigo.

Edward Estling Cummings  in No Thanks (1935), in Complete Poems 1904-1962
(Liveright Pub., 1994), traduzido por Carlos  Campos

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

conhecer é comparar.


A IMAGEM ROMÂNTICA
Há outras coisas, Horácio,
e a tua filosofia é barata,
na verdade não custa fixar
as coisas ideais à distância:
terás vista panorâmica
mas sempre a visão é polémica.
Gostava que alguém me mostrasse,
mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.
As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
Tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm, pessoas morrem, a vida
é breve, impávido o
real se esquiva a designar.
Comparar é colidir: o verbo
talvez nos leve
a mais nenhum sinal.
MARGARIDA VALE DE GATO

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

À minha volta surge um milagre incessante


sou uma pequena igreja(não uma grande catedral)
longe da opulência e imundíce das apressadas cidades
-não me preocupo se os dias mais breves se tornam brevíssimos,
não tenho pena quando sol e chuva fazem abril

a minha vida é a vida do ceifeiro e do semeador;
as minhas orações são as orações da terra onde desajeitadas lutam
(encontrando e perdendo e rindo e chorando)as crianças
cuja qualquer tristeza ou alegria é meu tormento e meu aprazimento

à minha volta surge um milagre incessante
nascer e glória e morte e ressurreição:
sobre o meu ser adormecido flutuam flamejantes símbolos
de esperança, e eu acordo para uma perfeita paciência de montanhas

sou uma pequena igreja(longe do alucinado
mundo com o seu enlevo e angústia)em paz com a natureza
-não me preocupo se as noites mais longas se tornam longuíssimas;
não tenho pena quando a calma se torna canto

de inverno de primavera,ergo a minha espiral diminuta para
o misericordioso Ele Cujo único agora é para sempre:
permanecendo erecto na verdade imortal da Sua Presença
(acolhendo humildemente a Sua luz e orgulhosamente as Suas trevas)


E.E.Cummigs