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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

''quero... quatro pacotinhos de açúcar com a imagem dos quatro discípulos evangelistas, se não tiver, são difíceis de encontrar, podem ser quatro pacotinhos de açúcar com a imagem dos quatro cavaleiros do apocalipse...''

- The Left-Handed Woman, Peter Handke, 1978
Lista de compras 
(ANA DE AMSTERDAM)

Quero um tomate maçã, vermelho, de polpa dura, quero um par de sapatos de flamenco, uma caveira sorridente, de preferência de grandes olhos espantados, quero dois dentes de alho (para o ensopado de coelho), três cebolas roxas (para o ensopado de frango do campo), um quilo de cogumelos vermelhos às pintinhas brancas, uma abóbora porqueira, quatro pacotinhos de açúcar com a imagem dos quatro discípulos evangelistas, se não tiver, são difíceis de encontrar, podem ser quatro pacotinhos de açúcar com a imagem dos quatro cavaleiros do apocalipse, quero também um paraplégico capaz de fazer amor, uma menina cigana de lábios pintados de azul, o mapa para o cadafalso, três sacos de água quente, cinco dióspiros de roer, cinco burkinis amarelos, trinta lenços de seda libanesa e, se não for pedir muito, duzentos gramas de fiambre, cortado em fatias finas, transparentes como o papel.

domingo, 17 de setembro de 2017

''...dera-se conta de que a literatura estava cheia de adúlteras e cortesãs: Maria Eduarda, Luísa, Anna Karenine, Genoveva, Madame Bovary, Margarida Gautier. Aninhas invejava secretamente a coragem dessas mulheres...''

The Bridges of Madison County, Clint Eastwood, 1995

Pozinho burlesco de enganar
ANA CÁSSIA REBELO

''Não sabia mentir. Por ser assim, inábil na mentira, a primeira coisa que Aninhas fez quando se apaixonou por Augusto foi contar ao marido o que se passava. Não conseguia estar com Lima, sentir a frouxidão da barriga do marido roçar o seu ventre lisinho, fruto de esforçadas horas no ginásio, enquanto mentalmente fugia para os braços de Augusto, coxo, é certo, com um enorme diastema entre os incisivos frontais, também é certo, mas gentil na cama, homem de muitos encantos. Aninhas não tinha estofo para ser adúltera. E tinha pena! Na juventude, por influência de uma tia enfermeira, que vivia numa vivenda abarracada na Cova do Vapor, lera os clássicos. Salomé, a tia enfermeira, todos os anos a convidava para passar quinze dias de férias. Aninhas ia. Apanhava a camioneta para a outra banda. Caminhava na praia, aprendia a cozinhar com a tia, especialista em bolos, assados e doces de colher, e lia os clássicos. Nesses verões passados na Cova do Vapor, para além de descobrir a localização exacta do seu clitóris, tocava-lhe levemente com a ponta dos dedos e o seu corpo expandia-se, lendo os livros da tia, dera-se conta de que a literatura estava cheia de adúlteras e cortesãs: Maria Eduarda, Luísa, Anna Karenine, Genoveva, Madame Bovary, Margarida Gautier. Aninhas invejava secretamente a coragem dessas mulheres. Tinham finais trágicos, claro que tinham!, definhavam até à morte ou atiravam-se à linha do comboio, mas, enquanto a tragédia não chegava, que prazer tiravam das tardes secretas com os seus amantes…Quando contou a Lima que se sentia atraída por outro homem, tendo o cuidado de nunca revelar a identidade do outro, mais do que a censura do marido, custou-lhe admitir a sua derrota. Lima ouviu-a em silêncio. Aninhas calou-se. Lima olhou-a como se não existisse. Aninhas desviou o olhar. Lima, de comando na mão, pediu-lhe que saísse da frente do televisor. Aninhas teve vontade de chorar. Não era uma mulher séria, mas também não era uma adúltera. Era apenas um pozinho burlesco de enganar, um desenho fruste e garrido, desenhado a giz numa calçada que, mais cedo ou mais tarde, se apagaria com o vento e com a chuva.''

domingo, 15 de janeiro de 2017

''Ausento-me.''

peça de Leonilson

''Não perde tempo, os seus braços aumentam de volume, alongam-se, parecem ser capazes de dar várias voltas ao meu corpo. A sua respiração é cada vez mais acelerada, sinto o seu bafo na cova do meu pescoço. Lá fora, o céu desfaz-se agora em pingos grossos, a chuva estala nos vidros. O meu marido levanta-me a camisa de noite, as suas mãos tocam-me. Deixo que me tome. O meu corpo está aqui, na cama, à sua mercê, para que faça dele o que quiser. Um corpo é apenas um corpo, o meu fica aqui, daqui a nada, quando tudo acabar, venho buscá-lo para o lavar e tratar. Ausento-me: estar deitada na cama ou sentada na sala em frente do televisor ou na cozinha a lavar a loiça passa a ser igual. Tanto faz. Estou simplesmente deitada, sem fazer nada, à espera que isto acabe depressa. Mal me liberto do meu corpo sinto-me tranquila, cheia de silêncio. Pairo como um fantasma sobre o meu quarto, sobre a minha cama, sobre o meu corpo. Agora é a altura certa para me entregar aos meus pensamentos íntimos. Procuro o coração luminoso da estatueta de loiça. Aqui está, mesmo ao meu lado, uma pequena lágrima de luz capaz de quebrar a escuridão mais cerrada. El corazón de los novios alumbra la oscuridad, disse-me o homem naquela tarde e abraçou-me. Recordo o desconhecido de Ceuta, o armazém abafado, a realidade suspensa num abraço demorado. Um instante eterno, sem futuro, nem passado. Começou a trovejar. Continuo a ter medo de trovoadas, mentalmente, começo a dizer a oração a Santa Bárbara, só ela é capaz de apaziguar as tempestades que a natureza lança aos homens. O tempo parece alongar-se. ''
Ana de Amsterdam, Ana Cássia Rebelo 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

''Sempre achara que o amor era dispensável e tornava as pessoas imbecis. Percebia agora que o desamor era igual: dispensável e tornava as pessoas imbecis. '' Ana de Amsterdam

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

(quero um homem que se vista de mundo para não parecer homem)