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terça-feira, 26 de março de 2019

''A vida é feita de nadas''

Brandos Costumes, Alberto Seixas Santos, 1975

Bucólica
por Miguel Torga

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Brandos Costumes.













Filha mais nova :
Falava de morte e não morria.

Pai :
Tanto lutei para que não te faltasse nada, e agora aqui estou, fraco. (...) Esta é a vitória que um filho consegue sobre um pai.

Filha mais nova :
A história de qualquer sociedade foi, desde sempre, a luta de classes.



Brandos Costumes
ALBERTO SEIXAS SANTOS (1975)

sábado, 3 de outubro de 2009

o nosso caso.


Não estou contra os jornalistas (...), mas realmente preocupam-me. Preocupam-me porque conseguem escrever sobre coisas que não sabem com um grande à-vontade. (...) Convém que os jornalistas estejam informados das coisas antes de falarem, saibam um bocadinho o que estão a dizer. E depois eu sinto que cada vez há mais grupos no jornalismo favoráveis ao realizador X ou contra o realizador Y, publicando grandes fotografias de um realizador ou de uma actriz, e sobre outra que é tão boa ou outro que é tão bom não escrevm nem uma linha. (...) Porque o problema em Portugal é que ninguém vai ver cinema português, mas todos se acham no direito de falar dele. Lembro-me perfeitamente de em 1964 ou 65', haver um programa na RTP, um programa cultural que, já não sei porquê, veio na época parar às mãos do António Pedro Vasconcelos e às minhas. E nós decidimos fazer um número sobre o cinema português. Entrevistámos o Paulo Rocha, entrevistámos o Fernando Lopes, entrevistámos a actriz do filme do Paulo, Os Verdes Anos, a Isabel Ruth (...). O número foi proibido pela censura, porque as pessoas diziam o que pensavam da situação do cinema em Portugal. A meio dos anos 60. (...) A segunda metade dos anos ´40 até aos anos '60 foi péssima para o cinema português. Os filmes são absolutamente idiotas, nulos sobre todos os aspectos. Mas também é verdade que esse cinema tinha um público regular. (...) O que era surpreendente é que estava toda a gente vestida de preto. E isto é muito sintomático porque, nos anos '60, quem se veste de preto são as pessoas da província acabadas de chegar a Lisboa. E portanto, era gente que não sabia ler e que ia ao cinema ver filmes falados em português. Este era o público real do cinema português nos anos 50', 60'.
Alberto Seixas Santos, 2006, in "Ler Cinema : o nosso caso"