
Celine (Juliet Berto)
Julie et Celine vont en bateau
JACQUES RIVETTE (1974)
Jacques Rivette é, entre os representantes da
Nouvelle Vague, aquele cuja obra tem tido menos divulgação entre o público. À
excepção de La Religieuse (1966),
cuja proibição pela censura contribuiu para uma mais ampla circulação, todos os
seus filmes anteriores a L'Amour par
Terre têm tido uma difusão restrita, para o que contribuiu em parte um
aparente carácter hermético. Desta primeira fase da sua obra, Céline et Julie Vont en Bateau pode
considerar-se o mais legível dos seus filmes, numa história que mistura golpes
de teatro rocambolescos à maneira dos primitivos filmes de episódios de Louis
Feuillade, os gags de Max Linder e os melodramas de mistério. Céline e Julie
"vont en bateau" à deriva pelos primitivos tempos do cinema. E Rivette,
ao leme, não tem por preocupação a análise ou reflexão sobre esse cinema. Como
toda a deriva não tem um fim em si, limita-se ao prazer de contemplar e, sempre
que possível, participar, rever, voltar ao princípio num percurso circular. A
legenda que repetidamente surge e que divide os sucessivos episódios
("Mais le lendemain matin...") serve mais para sublinhar essa
circularidade do que para fazer progredir a acção, se assim se pode chamar a
esta intricada rede de referências.
Céline
et Julie Vont en Bateau concretamente o que representa? É um filme fantástico? De
suspense? Uma farsa? Um melodrama? Possivelmente é tudo isso e coisa nenhuma,
como Gérard Frot-Coutaz dizia em Cinema 74. Será, antes de mais, um jogo
de ilusões e, portanto, de magia. O encontro e as aventuras de Céline e Julie
têm a magia como ponto de partida e de desenvolvimento. É a profissão de Céline
e a evasão de Julie, e é, também, a estrutura do argumento e da realização de
Rivette. Julie lê o seu livro de magia e traça símbolos na areia do jardim. O
olhar divaga pelos ramos das árvores, e um gato surge em pose de caçador. O
gato é também um animal conotado com a magia, e no filme de Rivette ele vai
surgir sempre nos momentos em que se passa de um mundo para o outro, na soleira
da entrada para a casa assombrada onde se materializam os fantasmas de Julie.
Céline surge a correr e, como o Coelho Branco de Alice vai servir de guia a
Julie para entrar no reino das maravilhas, embora neste caso, a comparação com Through the Looking Glass esteja mais
correcta. Porque as nossas heroínas mais do que entrarem num reino de
maravilhas, passam para o outro lado do espelho, numa referência claramente
cinematográfica. O que acontece na casa assombrada é uma outra história, como
que um filme cujo projector são os caramelos mágicos. E, como filme, é aqui que
se manifesta a busca de Rivette da natureza primitiva do cinema, com o seu
ambiente fantástico e as incessantes repetições (a mão ferida de Bulle Ogier).
E representa também a outra faceta do cinema de Rivette: a encenação
sofisticada, a ênfase na representação, o domínio do teatral, que se vai
afirmando cada vez mais na sua obra futura (Hurlevent, La Bande des
Quatre): Marie France Pisier e Barbet Shroeder são os personagens "do
outro lado do espelho", e a duplicidade de Céline e Julie, como
espectadores e participantes representa simultaneamente o estado do espectador
e o seu desejo de participação. Em termos fílmicos, Rivette materializa essa
sempre latente identificação do espectador com a personagem.
Digamos, pois, que mais do que um filme, Céline et Julie Vont en Bateau
representa um desejo de cinema, uma participação que não se limita ao acto de
criar, o que será dito de outra forma pela Purple
Rose of Cairo de Woody Allen. E esse desejo é também manifestado pela
diferença de estilos entre o que vê e o que é visto, entre o filme e o
"filme" no filme. Ao estilo sofisticado do segundo opõe-se uma
ligeireza, a verdadeira deriva "en bateau" de Céline e Julie. Há uma
sensação de leveza, de imponderabilidade nesta narrativa "primeira"
(para a distinguir da que se passa no interior da casa) que dá ao seu
"realismo" a autêntica dimensão mágica. Onde está o reino das
maravilhas? Deste ou do outro lado do espelho? Está, no fim de contas, no
próprio cinema que é capaz de tornar fantástica a imagem real, e dar um suporte
realista a uma história fantástica.
Este espontaneísmo narrativo da história em
exteriores, representa a outra faceta do cinema de Rivette, a que vem de Paris Nous Appartient e encontramos ainda em Le Pont du Nord, e que tem vindo a atenuar-se de filme para filme,
em detrimento da sua oposta. Digamos, por isso, que Céline et Julie Vont en Bateau é o filme chave de Rivette, aquele
em que as duas tendências se encontram em equilíbrio perfeito.
Manuel Cintra Ferreira
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