GERTRUD (Dreyer, 1964)
Manuel Cintra Ferreira
folha da Cinemateca Portuguesa
Gertrud
foi o último filme de Carl Dreyer. Quatro anos depois da sua estreia, o
realizador falecia sem ter podido concretizar o velho projecto de 20 anos de
uma Vida de Cristo, nem outro que o ocupou depois de Gertrud, uma adaptação da Medeia. Gertrud é tudo menos o
clássico “testamento” que geralmente se procura na obra derradeira de um autor.
Gertrud é um novo começo e uma
revolução. Daí que tenha sido também o mais incompreendido dos filmes de
Dreyer, por se encontrar muito à frente do cinema que então se fazia, apesar de
já ter aparecido a Nouvelle Vague e toda uma série de movimentos de “novo
cinema”. No fim de contas, se alguma coisa de “novo” se fez então, a parte mais
importante talvez esteja nos velhos mestres e nas suas obras derradeiras (e a
que mais se aproxima da obra derradeira de Dreyer é a que John Ford fez dois
anos depois e que também encerra uma vida e uma carreira, Seven Women), como se na sua despedida quisessem abrir
caminhos novos para os seus herdeiros. Isto acaba por resultar num paradoxo.
Bem vistas as coisas, Gertrud não é “o” testamento
do autor mas é “um” testamento, o de um período da história do cinema. Gertrud abre novos caminhos que serão os percorridos
por cineastas como Syberberg e Oliveira, na sua ruptura radical com a linguagem
estabelecida e as formas narrativas dominantes, na importância que dá à palavra
(não tem um dos filmes de Dreyer, exactamente a penúltima longa-metragem, esse
título?) e ao espaço teatral. O próprio Dreyer referiu este filme como uma
experiência “em tornar as imagens secundárias ao discurso”.
Gertrud,
como os filmes anteriores de Dreyer, Vredens Dag e Tva Mannisko (“Dois Seres”) e como Benilde de Manoel de
Oliveira,
é uma adaptação de uma peça de teatro, neste caso o drama homónimo de Hjalmar
Soderberg, de 1906, influenciada pelo teatro de Ibsen, em especial Casa de Bonecas, com a abordagem da
emancipação feminina face aos preconceitos das sociedades patriarcais
dominantes. Na sua encenação Dreyer não se limita a seguir rigorosamente a
construção teatral, parece mesmo enfatizá-la, ao recusar a narrativa clássica do
cinema, com a câmara “distante” como um espectador na plateia (como Straub
fazia, quase ao mesmo tempo, com Nicht Versohnt, e Oliveira fará, depois, em Benilde ou a Virgem Mãe), anulando, deste
modo, o uso do grande plano (que fizera a sua glória em La Passion de Jeanne d’Arc) e o trabalho de
montagem que se limita praticamente à “colagem” das cenas, sem função dramática
própria segundo as concepções de Griffith e Eisenstein (e do próprio Dreyer em La Passion... e Vredens Dag).
Daí as reacções negativas de que o filme foi vítima aquando da sua estreia: o
velho mestre estava senil e fazia cinema como se Griffith nunca tivesse
existido (críticas semelhantes às que se fizeram a Oliveira a partir de Amor de Perdição). Em algumas reacções à sua estreia
mundial (em Paris) dizia-se que Dreyer se limitava a filmar “longas e monótonas conversas de sofá”.
Era, como refere David Bordwell em The
Films of Carl Theodor Dreyer, uma reacção que reflectia o “pânico que se
apodera de nós quando confrontados com um filme que se recusa a ser cinema”. Gertrud nas suas quase duas horas de duração contem
apenas 86 planos (Vredens Dag, com hora e meia tem
cerca de 500 planos). Tudo é filmado em interiores (o único exterior é a
sequência no jardim) e em longos planos sequência. Por outro lado, Dreyer impõe
às personagens um discurso voluntariamente anti-realista. Os cenários e
figurinos estilizados e austeros completam essa linguagem enfática e teatral, o
mesmo método que Oliveira utilizará para Amor de Perdição, Benilde e Francisca, que, como Gertrud,
são histórias de mulheres sufocadas pelas convenções do seu tempo.
Gertrud é uma mulher que busca o amor acima de
tudo, mas que só encontra mesquinhez e ambição à sua volta. A sua “revolta”
faz-se, primeiro, por um desafio às convenções, abandonando o marido e
procurando outras relações onde possa encontrar o que busca, e depois no retiro
da vida mundana. Neste percurso, Gertrud
revela-se o oposto das heroínas de Dreyer, embora, como elas não possa
rebelar-se contra os ditames da sociedade. Será sua vítima, mas poderá
afirmar-se inteiramente independente, assumindo a sua solidão em nome do amor,
que será o seu epitáfio desejado: Amor
Omnia. O último dos filmes de Dreyer é também o mais moderno.

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