segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

: Sobre Psycho


"Mas sobretudo conceptualmente: Hitchcock orgulhava-se de que tal sucesso tivesse sido conseguido com aquilo a que chamava “cinema puro”. E queria com isso dizer que, não havendo no filme nada de especialmente agradável para o espectador, nem nada com que se pudesse identificar (nem um actor, nem uma personagem), o que envolvia a audiência era apenas e só a “pureza” do gesto cinematográfico, a eficácia total de uma construção de cinema e pelo cinema - o “controlo do universo”, como Godard lhe chama nas Histoire(s) du Cinéma. Essa “pureza”, o gesto pelo gesto, fora o que seduzira Hitch para a história original de Robert Bloch que o argumento adapta. Na conversa com Truffaut, o realizador não se mostra especialmente agradado com o livro, e quando Truffaut lhe pergunta “então, porquê?”, Hitch responde que foi a cena do chuveiro que lhe despertou o interesse. A cena do chuveiro: tour de force técnico-erótico, talvez o único momento em todo o cinema clássico americano em que a montagem “explode” como explodia em Vertov e Eisenstein, momento fulcral que liga o ralo de uma banheira às espirais de Vertigo, que liga o sublime e a porcaria, que põe os “buracos” (o ralo, o orifício na parede por onde Norman Bates espreita as suas hóspedes) no centro de tudo. O último plano do filme anterior de Hitch, Intriga Internacional, mostrava outro buraco, um túnel e um comboio a entrar nele. Maneira de dizer, também, que Psico tresanda a sexo de uma ponta à outra, e nunca nenhum filme tresandou a sexo de maneira tão perturbante."
Luis Miguel Oliveira, in A poética do ralo 

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