o olhos sem rosto.

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"Nada lhe pertence mais do que os seus sonhos." Friedrich Nietzsche

Dr. Bill Harford: Are you sure of that? 
Alice Harford: Am I sure? Only as sure as I am that the reality of one night, let alone that of a whole lifetime, can ever be the whole truth. 
Dr. Bill Harford: And no dream is ever just a dream. 


"As figuras esfumadas do baile de máscaras tomavam conta da realidade e pairavam diante deles."
 "Exageraram levemente a atracção que os parceiros mascarados lhes despertavam..."


"O seu olhar não me procurou, mas eu brincava com a ideia de me juntar a ele na sua mesa e dizer-lhe: - Aqui estou, meu amor tão ansiado, meu querido. Leva-me contigo."

excertos de Traumnovelle, Arthur Schnitzler, 1926
stills de Eyes wide shut, Kubrick, 1999

I.
BILL: 
Deitada. A mão fechada sobre si guarda o Mistério. A vivacidade de olhos e gestos suspende-se;  Plena entrega às fronteiras do invisível. Do corpo, o mínimo. Uma mortificação, quase, não lhe fosse a respiração branda, o batimento lento. O sono dela, um meu não expresso tremor, como se... como se algum dia ela chegasse a... Pequena angústia pela ausência, a cada momento em que não te sei. Uma dor distante, descontrolada, fosse o teu sono um minúsculo ensaio para o vislumbre de qualquer outra falta... Ah soubesses tu... Como se o desejar-te não aceitasse menos do que a plenitude. Como se nem aqui, dormindo, a tua ausência me fosse suportável... Beleza. Desejo. Vida. O meu amor habita a vida que te anima. Quero estar vivo, quero viver no teu corpo. Quero estar tão no teu corpo, mapa seguro, tacto treinado, quero saber-te inteira. Quero abrir o teu corpo. Quero abrir o teu corpo e perceber o que te acende o brilho nos olhos. Quero abrir o teu corpo e conhecer o que compõe o teu espírito. Quero abrir o teu corpo e adiantar cada gesto teu, saber minuciosamente quanto me queres, dissecar a misteriosa fortaleza da tua alma, todas as linhas do teu encanto, as memórias preservadas, cada um dos teus sonhos. Quero que me ofereças o Mistério. ( Será sempre o mesmo, o Mistério, inominável dom que prende certos homens a certas mulheres, para lá dos confortos físicos? ) Pudesse eu ter-te, posse plena... minha mulher, minha casa, minha cama, let's fuck. Que a minha solidão seja sempre tua, esta é a minha privacidade: eu preciso de ti. Uma privacidade que se quer pública - o nosso casamento é a minha afirmação pública de que eu preciso de ti. Mas só eu e, espero, tu, sabemos o quanto, o como, eu preciso de ti.  Pudesse eu escolher não dormir, viver sem abdicar da vigília, nunca me entregar à inconsciência... Penso, recomeço a pensar, o coração bate, bate, bate, bate, o meu coração ainda bate, o teu coração ainda bate, o coração da pequena ainda bate, e a realidade é só isto -  ainda estamos, ainda nós, ainda o nosso tempo, ou o tempo dos nossos ritmos, por um momento, uníssonos. Como relaxar no meio deste momento? Ganhando sempre a consciência no combate com o cansaço, porque é limitado o corpo. Não falta o armário dos remédios e das ervas que me poderão enfim descansar. Sei tudo sobre a exaustão do corpo;  a minha profissão é ver de muito perto a morte. Vê-se a morte lentamente a espalhar-se no corpo, a adoecer à vez cada uma das partes; em tempo nenhum, os orgãos raquíticos quase no limite, e o contorcer-se dos minutos finais, e o pacificar-se na derradeira inércia. Depois, nada mais. - Eu que não suporto sequer que durmas meu amor. Como poderás duvidar? Se tu soubesses... Se soubesses em que dúvida se suspendem as horas até chegar - estará ela na nossa casa, com a nossa filha... não dormirá ainda, à espera que eu chegue... estará ainda viva...?  Se tu soubesses... O meu amor é a vida do teu corpo - para mim, és o único corpo da vida. É com este pessimismo que os curo da cura impossível. Todos eles, os outros, não passam das partes adoecidas de um corpo que carrega em si a morte, na calma do seu processo habitual de ir chegando... Vejo-a a levar a vida dos corpos todos os dias, mas a verdade é que nunca deixei de me surpreender.  Para o teu corpo, eu não prevejo nenhuma.

Victor Ziegler: Life goes on, until it doesn't. 
II.
ALICE : 
Não é tanto uma monotonia. Nem é uma descrença, nem uma dessas índoles que tendem para a insatisfação constante. Não é sequer um excesso de conforto material, a dar para o destrave dos delírios, sem um fundo de ligação à realidade, sem um apego ao passado do presente, à história que dá a vida a cada uma das coisas.  Não sei como se explicam os ímpetos. Como te explicar este meu apego aos sonhos. A fome de desconhecido. O corpo abandonado à novidade pura,  algo como uma reinvenção do existir, um recomeço breve... 
Percebe a necessidade da minha ausência - a minha imposição de mim. O sublinhado dos meus próprios contornos. Lembrando que no encaixe físico se encontram dois corpos. Eu sou o outro corpo.  Nascida de um outro ventre, crescida com o quer que seja que me fez reflectir. Uma personalidade a materializar-se durante os vinte e cinco anos em que nem me sabias na terra - vinte e cinco anos de distância até à hora em que nos conhecemos. Por mais fundo que seja o enlace dos corpos e dos espíritos, a soma dos nossos orgãos e membros é clara, não deixa dúvidas : são sempre dois corpos deitados nesta cama. A repetição dessa cena nocturna, o momento uníssono de descanso na nossa cama, no nosso quarto, na nossa casa, é a disposição física que a cada dia se repete, para acrescentar um presente à nossa história em comum. 
Mas... como não abandonar o sonho a um rosto diferente ...  ao desejo de outro corpo... de outra cama? Reflectir, à entrada da segunda metade da vida - voltar a escolher tudo o que se trouxe da primeira metade. Tudo porque esta cara, este corpo, estão a cair. Ao espelho, não há como não recordar a juventude das possibilidades não gastas - cada olhar que suspendeu um convite, cada proposta de sedução, cada vontade não consentida... Celebrar a memória que habita o corpo que não pára de cair. Celebrar o que permanece no corpo dessa juventude em fuga. Celebrar o corpo. Celebrar a sua acção, a vida - Celebrar a aparição de um brilho, um ânimo, um entusiasmo, nos olhos do outro rosto.  Uma máscara, uma alucinação de erva, ... o mesmo alívio do fardo da identidade.




Anemone, Philippe Garrel, 1967



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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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