sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

"No end to the sound of making love."

DISSECANDO LYNCH.

Wild at Heart, David Lynch, 1990

" Lynch perturba a nossa mais elementar relação fenomenológica com o corpo vivo, relação baseada entre a separação radical entre a superfície da pele e o que lhe subjaz."






A sexualidade que a pintura irradia é húmida, malsã, impregnada pela putrefacção da morte... eis-nos já em pleno universo de David Lynch. Quer dizer, toda a ontologia de Lynch assenta na discordância entre a realidade, observada a partir de uma distância segura, e a absoluta proximidade do real. Este procedimento elementar acarreta um movimento que vai de um plano nde conjunto a uma proximidade perturbante que torna visível a ascorosa substância do gozo, o pulular e a fosforescência da vida indestrutível.
(...)
Nos filmes de Lynch, este achatamento da realidade descrita, que anula efectivamente a perspectiva de uma abertura infinita, descobre o seu equivalente preciso ao nível do som. Voltemos à sequência inicial de "Blue Velvet": o seu aspecto característico decisivo é o ruído sinistro que surge quando nos aproximamos do real. Trata-se de um ruído difícil de localizar na realidade; par determinar o seu estatuto poderíamos invocar a cosmologia contemporânea sobre os ruídos nos limites do universo. Estes não são simplesmente internos ao universo. O estatuto ontológico desse ruído é mais interessante do que pode parecer, uma vez que subverte a noção fundamental do universo infinito, aberto, que define o espaço da física newtoniana.
Esta ideia moderna de universo aberto baseia-se na hipótese segundo a qual toda a entidade positiva (ruído, matéria) ocupa algum espaço (vazio) (...)
Mas o ruído primordial, o último resto do Big Bang é constitutivo do próprio espaço: não é um ruído no espaço, mas um ruído que mantém o espaço aberto como tal.

As Metástases do Gozo, Slavoj Zizek

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