terça-feira, 2 de agosto de 2005

MOONRISE, Borzage, 1948

MOONRISE, Borzage, 1948

Se I’ve Always Loved You é o mais delirante filme de Borzage, Moonrise é o mais sombrio. Em ambos, porém, a progressão para a luz é o movimento imparável dos seus personagens. Em Moonrise, porém, tal movimento não é apenas metafórico, mas também físico, através do itinerário de Danny Hawkins. John Belton diz que neste filme “negro” (e nunca o termo encontrou no cinema forma tão física e psicológica como em Moonrise) “the shadows take on a supernatural quality, becoming demonic, deathless presences that, like the shadows on the wall of Plato’s cave, have a ghostly, abstract reality of their own, a reality ultimately independent of the concrete reality of their source”. De facto, se toda a obra de Borzage exprime uma visão platónica do mundo, em nenhum outro filme tal concepção surge exposta de forma tão decisiva: Toda a realidade exterior que rodeia Danny na sua progressão, acompanha a ascensão da sua alma das trevas para a luz, transforma-se a cada passo que dá para a revelação, para a aceitação de si mesmo. Moonrise será mesmo daqueles raríssimos filmes que encena um processo de conhecimento e de consciência, em que a realidade exterior é vista em consonância com a perturbação de uma alma, sendo o simbolismo desta relação rapidamente comunicado ao espectador sem necessidade de imagens surrealizantes com que o cinema “negro” dava a “entender” as perturbações de um espírito ou os seus pesadelos. Tudo em Moonrise, o pântano, o Luna Parque e a grande roda, a velha mansão Blackwater (mesmo este nome), o velho Moses e os cães, o surdo mudo Billy Scripture (outro nome de ressonância bíblica), Sykes, o demónio, sombra negra de Danny, a avó e o lugar que habita (local de transmutação de Danny) e a deslumbrante luz final, tudo é simultaneamente real e tudo é visto de acordo com o estado de Danny.

Moonrise começa com uma das mais alucinantes sequências da história do cinema, e é simultaneamente o zénite da arte de síntese de Borzage. É conhecida a forma como o realizador em breves momentos e com uma incomparável economia de meios, coloca de imediato o espectador no cerne da acção e esboça, de forma bem nítida os caracteres a ela ligados. Mas nunca na sua obra, ou mesmo na de outros, me lembro de ver e sentir uma atmosfera de sufocante fatalismo com a energia com que se afirma em Moonrise e, simultaneamente, de receber nessa síntese todos os elementos que participam no drama da vida de Danny.

O genérico participa da estranha atmosfera do filme. É uma imagem de água pantanosa que lentamente se move, semelhante à mesma que, no plano seguinte, vemos ser atravessada por um grupo (enquadrado apenas pelas pernas) em passos solenes a que a música dá uma ressonância fatal e trágica. Compreendemos porquê logo a seguir num dos belos movimentos de câmara e numa das mais perfeitas sucessões de raccords do cinema de Borzage. A câmara acompanha as pernas que sobem a escada do patíbulo, um lento movimento de grua para cima, desvia-se do grupo para enquadrar as suas sombras que se projectam na parede. Numa delas coloca-se um laço à volta do pescoço e outra acciona uma alavanca. O ruído do alçapão que se abre, e a sombra do enforcado faz um siderante raccord com o choro de um bébé no berço e a sombra de um boneco na forca que se projecta sobre ele. Quem o fez e porquê, não se sabe, nem importa. O que se define de imediato é o peso da fatalidade que se abate sobre um inocente que, no seu percurso crístico, vai suportar os seus pecados e os alheios. Este destino é também definido de imediato pelo plano seguinte: uma plongée (tão frequentemente associada ao olhar de cima, de Deus, no cinema de Borzage) sobre o garoto atormentado pelos companheiros. Sempre com a mesma música enfática passamos para um plano quase igual ao primeiro e enquadrado de forma idêntica, só que desta vez são as pernas de Danny que atravessam o plano na mesma direcção porque é também ao encontro do seu destino, a uma morte (real a de Sykes, espiritual a de Danny) que ele marcha. Consumado o irremediável, numa sequência em que sobre o rosto do adversário se encadeiam as imagens de uma vida de perseguições, Danny fica a contas com a sua consciência, procurando a paz (desse título em português que, uma vez não são vezes, tão bem resume o sentido do filme). Atmosfera sombria, como o estado da sua alma atormentada, e um labiríntico pântano por onde circula sem rumo procurando uma saída, que apenas pode encontrar em si próprio, como Moses lhe diz na tão bela sequência do encontro dos dois junto da cabana naquele espantoso plano em contra-plongée, em que o rosto de Danny ocupa metade do ecrã e Moses, ao fundo o olha benevolentemente dessa posição superior que marca o olhar de cima a que atrás me referi. Moses esse ser também à margem (outro marginal da comunidade é o único companheiro de Danny, o surdo-mudo Billy Scripture, e é sobre este, e o cão de Moses, que o rancor e a ira, o medo e o desespero de Danny se manifestam) mas uma marginalidade assumida, por ter já transcendido aquilo que ainda domina Danny: o desprezo por si próprio, o sentimento de culpa. Moses é um homem em paz consigo mesmo e com o mundo, para quem todos os seres são dignos de amor, tratando homens e animais da mesma forma: “mister”. O sentimento de culpa de Danny deriva do rancor que sente pela memória do pai, que considera responsável pelo seu drama. Será apenas o amor de Gilly (Gail Russell, uma das mais perturbantemente belas mulheres que passaram pelo cinema de Borzage) que lhe servirá de apoio (a espantosa sequência na mansão arruinada de Blackwater), mas mesmo assim incapaz de controlar as suas tendências suicidárias com que procura castigar-se: a fabulosa sequência do Luna Parque, naquela gigantesca roda que, mais do nunca, simboliza o destino de Danny, o movimento circular que fará reencontrar-se transfigurado e banhado de luz num dos mais belos finais da história do cinema. Para isso, terá ainda de atravessar de novo o inferno, esse pântano que marcou toda a sua vida, para o encontro com a avó que o faz reencontrar a verdadeira imagem do pai, essa imagem humana que Danny recusa (“You want to hate your pa”, diz-lhe a velha, fazendo eco das palavras de Moses: “O sangue mantém-nos vivos, não nos diz o que fazer”). É só depois dessa confrontação, que o leva ao túmulo do pai, que Danny fica apto a “juntar-se à raça humana”, com a culpa vencida pela força do amor.

Moonrise não é apenas, com I’ve Always Loved You, a súmula da obra de Borzage. É também como este filme, uma das mais deslumbrantes e delirantes obras da história do cinema.

Manuel Cintra Ferreira

Sem comentários: