Calhou-me nascer em França e calhou-me ir crescer à Marinha Grande (distrito de Leiria). Zona que teve a maior mancha florestal do país, mas 94% ardeu. Zona de praias convidativas mas, habitualmente, de banho interdito por causa das descargas poluentes das suiniculturas dos Milagres. Neste país, os surtos de E.Coli fazem anualmente manchetes nos jornais e nem a água canalizada se safa. Trago o hábito incutido em casa: não se bebe água da torneira. Ou se compra água, ou se ferve a água canalizada. Eu, que não como animais há décadas, lido assim com as consequências de haver quem come. E quem bebe água da torneira, também lida com as consequências de haver quem, como eu, bebe água engarrafada. Estamos juntos nisto da pegada ecológica. Eu, ora carrego comigo garrafas reutilizáveis de vidro, aço ou plástico, ora garrafas com filtro, ora, tantas vezes, garrafas de plástico de água que compro. Às vezes, reutilizo; outras vezes, só mando para a reciclagem. Pois, ontem, calhou filmar na praia do Norte, na Nazaré, onde o mar espalhou sobre a brancura da areia - para revelação nítida da desgraça em que estamos todos enfiados - mil cores, formas e tamanhos de plástico. E mais plástico. E mais plástico.
Rapidamente percebemos como usar para tudo um material que demora 500 anos a decompor-se no ambiente não foi nada inteligente e, oops!, reconhecendo a dimensão da epidemia, o pânico engatou em velocidade: os sacos de plástico agora pagam-se, já mudámos as palhinhas e os cotonetes para cartão, as tampas vêm agarradas às garrafas (para não se perderem antes de chegar à reciclagem), muitos dos sacos agora são de papel e, em 2030, o Parlamento Europeu removerá as unidoses de molhos e açúcar, assim como as miniaturas de produtos de higiene pessoal. Mas, entretanto, não só estamos a nadar no nosso próprio lixo, como os micro-plásticos contaminaram tudo (água, terra, ar) e já fazem parte do nosso genoma. Descobrimos os malefícios do BPA (Bisfenol A), disruptor endócrino presente no PVC que provoca distúrbios hormonais, infertilidade, cancro, etc, e, na Europa (2011) e nos EUA (2012), proibimos a sua presença em produtos infantis, já sabendo que aquecer plástico no microondas ou usar plástico desgastado liberta esta substância.
Lembrei-me da Ilha de Plástico do Pacífico (googlem!) a que chamam de Sétimo Continente: tem 3x o tamanho da França e está a flutuar o maior depósito de lixo oceânico do mundo, com 1,8 triliões de pedaços de plástico à tona, matando e adoecendo milhares de animais (humanos incluídos). O mais antigo dos plásticos aí datados remonta a 1977, o que quer dizer que nem precisámos de meio século para lixar o planeta. Anualmente, produzem-se 430 milhões de toneladas de plástico, dois terços do qual com vida útil curta, acabando rapidamente descartado.
Nas milhares de tampas espalhadas pelo areal da Praia do Norte, ontem, não pude deixar de ver as minhas embalagens de água engarrafada… e, com um arrepio na espinha, pisei a beira-mar a calcular de cabeça tudo o que posso mudar nos dias. Vi utensílios descartáveis de fio dental que podiam ser só o fio dental; Vi escovas de dentes de plástico que podiam ser de bambu; Vi pentes que podiam ser de madeira; Vi solas que podiam ser de borracha; Vi embalagens de gel de banho que podiam ser barras de sabonete; Vi copos e talheres de plástico que podiam ser só de cartão ou madeira; E vi uma montanha de desperdício de pesca, prática tão pré-histórica que podia já nem existir (e quem quer comer peixe entupido de plástico…?)
Reciclar é indispensável mas, melhor ainda, é seleccionar o que se consome. Os supermercados embalam bolos e pães em sacos de papel mas depois põem-lhes viseiras em plástico: podemos voltar às sacas do pão (evitando as saquetas e luvas descartáveis disponibilizadas para self-service), levar sacos de tecido para vegetais e fruta, regressar às cestas de compras ou, chiquérrimo, levar sempre os nossos shopping bags (que os há tão giros) para todo o lado. Claro que ninguém é perfeito, mas é preciso começar a ir aperfeiçoando.







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