Quem me dera ainda ter por aí algures aquela foto em 35mm que roubei à Manuela Serra enquanto esta acarinhava uns gatos vadios numa estação de serviço da auto-estrada... Era 2010, talvez. Nós vínhamos dos Encontros da Guarda [o certame de dois anos com que a Associação Luzlinar preparou os actuais Encontros Cinematográficos do Fundão], onde o seu filme O MOVIMENTO DAS COISAS tinha sido exibido pelo grupo do costume: o José Oliveira, a Marta, o Mário, o Carlos, o Daniel, o Mozos, o Luís Miguel. Por amor a essa pérola escondida do Cinema Português, começou aí - como missão colectiva - a operação de resgate. Não satisfeitos com uma exibição pontual em sala, com a viva presença da realizadora, o grupo do costume prosseguiu, realizando com ela um documentário: O MOVIMENTO DAS COISAS 30 ANOS DEPOIS. Mas porque faltava ainda mostrar o filme escondido, a sua persistência traz-nos até ao dia de hoje. Resta-nos saudar ao Daniel Pereira (The Stone And The Plot) a coragem de investir no restauro deste precioso filme, revolucionário até às costuras. Como foi mágico revê-lo em sala, com José Mário Branco ao pífaro, revibrando as cores da nova cópia no escuro do Cinema IDEAL!
Como é que O MOVIMENTO DAS COISAS, em toda a sua calada poesia, não haveria de ter confundido a vermelha geração do pós-revolucionário, esfomeada por dedos de direcção?
Sem voz-off nem palavras de ordem, um filme como um manifesto feminista com as mãos na matéria, sobre a emancipação diametral da mulher na força da sua autonomia: semeando, colhendo, moendo, amassando, cosendo, educando, costurando, lavando, cozinhando, redistribuindo. Os homens surgem sentados e servidos, amparados na sequência do esforço físico dos trabalhos manuais. Por contraponto, a organização bacoca de uma Igreja local, dependente da esmola alheia, esvazia-se de espírito face à plenitude da Natureza que emoldura de fruta as crianças e traz milho ao romance da desfolhada. Em harmonia, tudo se parece, tudo se basta, tudo se replica, tudo flui. Sem punhos cerrados no ar, a mulher é bela como o rio desce.
Filme O MOVIMENTO DAS COISAS, de Manuela Serra em cartaz, em Lisboa, no Cinema IDEAL; no Porto, no Cinema Trindade.

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