segunda-feira, 12 de novembro de 2012

The Act of Killing: a little bit of the old ultra-violence



''O melhor e o pior de The Act of Killing é, simultaneamente, o seu dispositivo''.
Ricardo Vieira Lisboa
 









Este The Act of Killing (Joshua Oppenheimer, 2012) podia também chamar-se A História é tão escrita como filmada pelos vencedores e esta reencenação é compulsivamente binária. Sentimos repulsa mas é porque compartilhamos ídolos (Marlon Brando, John Wayne, Elvis...) com estes frios assassinos-torturadores que chegamos, subrepticiamente, a questionar o elogio da violência que o cinema-de-acção transporta em si desde sempre (e que estimula o pior nas cabeças férteis). Alto lá e (con)centremo-nos: o problema do mal não é sempre conjugado no presente? Devemos lembrar-nos do que a lucidez de Ricardo Araújo Pereira tem sublinhado recentemente a respeito do acesso ao legado cultural: não há justificação para que nos protejamos uns dos outros ou dos hábitos do passado, mesmo se estes ofendem os costumes do presente. Estudar não é, sempre, viajar para trás para andar em diante? Estes gangsters não se autorizaram a ser ''mais sádicos do que os nazis'' porque os filmes sobre nazis os inspiraram a isso: é a circunstância política o seu habitat. Serem premans (gangster=free-man), como se ouve, não significa uma independência política face ao governo (são semi-oficiais e alinhados com o grupo paramilitar Pancasila Youth) mas significa que a sua acção é impune à criminalização e que este sadismo está, autorizadamente, à margem da lei. E se com palavras se constrói nas cabeças o jogo dual da ultra-violence, as suas definições mudam consoante os tempos e as vontades. Um comunista nesta Indonésia é um opressor a ser exterminado. Se, em 2017, um comunista, em Portugal, é uma espécie em extinção, em 1974 era sinónimo puro de anti-salazarista e, em 1961, era a definição-coragem de um libertário em clandestino contrapoder. Um comunista na Polónia de hoje é um perigoso reaccionário a ser contido e, na Rússia, quase quer dizer patriota. Nos EUA, quer dizer anti-americano mas, nos anos 50, queria dizer o-diabo-feito-carne. Esta modelação depende da história do lugar e de como foi pintada a cena, no mais simplista preto e branco com que, sempre, se faz política.

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