terça-feira, 10 de março de 2009

POP PÚBERE / Ode à Mariana (bis)




/ As aulas da manhã ainda não tinham começado e
a Mariana trouxe-me um texto.
Estendeu-mo mudo
sem adornos, sem olhos, sem discurso:
- Lê.
A alma da Mariana sai-lhe pelos olhos, já disse?
Uma pessoa fixa e admira aquela íris moral 
aquela raça de futuros
como quem resgasta à explosão
ELA cuida de todos nós por dentro.
/ Depressa,
- Lê já, Sabrina.
: A página era da última edição da Revista Criatura
: O poema era da BEATRIZ HIERRO LOPES
«Dessem-me amoras, mirtilos e framboesas e, 
com todas elas esmagadas nas minhas mãos, 
tingiria as paredes do quarto com o corpo»
- Ah a salvação vem em bagas?  
(rimos e 
afundamos)
// Ela sabe 
sou um corpo fora da cama 
sou o esforço de um vestido floral 
sou o caos escondido na algibeira


{ Vou testando palavras
{ Vou ensaiando legendas
{ Vou organizando o indomável e 
caio em claro na manhã
como quem reza à esplanada por abrir e
engolindo com um relance e um café 
as gordas do jornal
arriscamos tentativas de biografia para este embrião de século. 

: De uma à outra
 pressa em suturar estes dia e
a insatisfação reina porque (ainda há puberdade por sacudir)
há indicadores apontados e várias cabeças a prémio 
/ fantasista, ELA trouxe um leque hoje e
empinada em total graça, sacode de si os desesperos de superfície 

(É a dignidade que houver em estudar o que procura)
{Estudar o quê, a começar por onde?}
Nunca o presente se fatiou assim
excitado por tendências
expandido em reacções a reacções
Duvidamos de tudo e
cursamos humanidades todos os dias
: Vemos chover às mil teorias por dia
- Aprendemos a indefinição
- Aprendemos a incerteza
- Aprendemos os ''alegadamentes''
- Aprendemos as importâncias e os equivalentes
- Aprendemos os quadros democráticos de crer em todos os credos e
Analisamos tudo consoante prescrito
para não deixar nenhum simétrico de fora e
Não temos sucesso nisto,
Fervilhamos e não aceitamos definitivos:
A fantasia é mais interessante do que o facto.  
(*É certo que bebemos demasiado café)
(*É certo que não vamos à igreja)
(*É certo que não esboçamos manifesto)
Não sabemos o que sabemos.
Somos pós-, neo-, alter-
Não temos nem precisamos de -ismos
(Amizades não são seitas e) deuses, só revestidos a pele. 
com colheitas de natureza vária
(Ao menos) convergimos na intuição poética:
- É melhor não ir à aula e acabar de ler este poema. 
- É melhor. 

3 comentários:

  1. Há já algum tempo que tenho prazer em ir acompanhado os passos dessa Criatura. Atrai-me particularmente a poesia do Diogo Vaz Pinto. No blog que indicas (Cum Creatura) são normalmente publicados apenas os textos editados em cada número de revista (em Abril sai a nº 3, acho) mas em www.omelhoramigo.blogspot.com podes ler vários textos sobretudo dos 3 cabecilhas que nomeaste (Ana, David, Diogo) - os seleccionados para editar e mesmo os que injustamente ficam de fora.

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  2. Sim, também já tornei favorito. Obrigada Lili.

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  3. Beatriz Hierro Lopes14 de março de 2009 às 13:07

    Boa tarde,
    Fico contente que tenha gostado do meu texto. Obrigado.

    Cumprimentos,

    Beatriz Hierro Lopes

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