quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

O quadro e o espaço imaginário

O quadro e o espaço imaginário

“A sensação de vidraça — que o cinema irá transpor da objectiva e do visor da câmara de filmar para o ecrã— permitiu atribuir «à superfície pictórica a qualidade de transparência, para além do seu carácter plano, o que tornou possível conceber a ideia — que quase nos parece evidente em si mesma— de interpôr este plano transparente entre o objecto e a vista e, assim, construir a imagem em perspectiva [---] como uma projecção central». A chapa imaginária de vidro, plana e transparente, actua portanto como um autêntico dispositivo de projecção, informado por uma impressão de coerência, estabilidade e realidade. A principal consequência da perspectiva monocular é constituir o olhar do espectador como o lugar privilegiado do sujeito da representação.”
Eduardo Geada : O Cinema Espectáculo

“ O plano é, paradoxalmente, o conceito fílmico mais utilizado e importante, mas também o mais polémico e ambíguo. Na concepção mais tradicional da chamada “linguagem” cinematográfica, são-lhe normalmente atribuídos, pelo menos, três sentidos diferentes. Assim, e do ponto de vista da rodagem, um plano é o fragmento de película impressionada entre o momento em que o motor da câmara arranca e o momento em que para; do ponto de vista da montagem, o plano será o fragmento de filme entre dois cortes e colocado entre duas colagens; do ponto de vista do espectador, o plano é, simplesmente, o fragmento do filme que medeia entre dois raccords. (...) O “quadro” ou “enquadramento” é materialmente definido pela janela da câmara (...). Para Gilles Deleuze, o enquadramento corresponde à determinação de um sistema relativamente fechado, que compreende tudo o que está presente na imagem.” João Mário Grilo, in “As Lições do Cinema”

A expressão francesa “le cadre”, em tradução literal “o quadro”, é o equivalente à expressão portuguesa  “plano”, ou “tomada” (português do Brasil), a derivação da palavra inglesa “take”. Ambas se referem a um registo ininterrupto de um trecho de filme, de duração variada (ou até correspondente ao próprio filme, como no filme “A Arca Russa” de Sokurov - de 2002, composto por um só plano de 96 minutos, sem cortes).




A Escola de Atenas, Rafael Sanzio, séc. XVI

Pormenor de Santa Virgem das Rochas, Leonardo Da Vinci, séc XV-XVI

A nomenclatura do vários estilos de plano, segundo uma organização escalar remonta  ao sistema de perspectiva utilizado na pintura Renascentista. O campo é a porção de espaço imaginário que está contida no interior do quadro. O quadro apresenta gradações físicas em profundidade : o valor dos elementos em jogo é graduado fisicamente para, ora distinguir, ora confundir as partes que compõem o todo.
A concepção física do quadro cinematográfico eleva a um novo patamar a ênfase antropocêntrica e a busca permanente de equilíbrio e de harmonia entre figura humana e o ambiente, que a arte renascentista antevira. Assim como Giotto começou por repensar as relações entre espaços e volumes, procurando os eixos que ajudariam a suportar um novo estilo como uma nova representação da realidade, também o cinema chegou com esta vocação: basta lembrar o primeiro filme do mundo, “L'Arrivée d'un Train à La Ciotat” (Irmãos Lumiére, 1895), que compreende a obtenção de um efeito dramático pela distância, ao colocar a câmara muito perto do comboio que chega. Com a manipulação de ângulos, de perspectiva e de linhas de fuga, o cinema entendeu, desde o seu nascimento, a importância do “ilusionismo” na representação artística – a compreensão dos poderes da imagem e dos efeitos desta na transformação do observador. Segundo Deleuze (em A Imagem-Movimento), o quadro é um sistema fechado onde a imagem se constitui – “uma operação que consiste exactamente num enquadramento : certas acções sofridas são isoladas pelo quadro.”



Sherlock Jr, Buster Keaton, 1925

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