quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

Metropolis (Fritz Lang, 1927)



METROPOLIS
por J. Bénard da Costa

Na senda de êxitos de crítica e público como Der Müde Tode (1921), as duas partes do Dr. Mabuse (1922) e as duas partes de Die Nibelungen (1924), Fritz Lang era já considerado o maior cineasta alemão (e do mundo) quando, em 1925, no regresso de uma viagem a Nova Iorque que profundamente o havia impressionado, concebeu Metropolis, a mais longa e cara produção da então poderosíssima UFA, publicitada como "o mais caro filme de todos os tempos". Metropolis custou 5 milhões de marcos e só nas iluminações e décors gastaram-se 400.000. Citem-se mais números para a época impressionantes: 620.000 metros de negativo, 1 milhão e 300 mil metros de película positiva, 750 actores secundários, 25.000 figurantes masculinos, 11.000 figurantes femininos, 1.000 carecas, 750 crianças, 100 negros, 25 chineses, 3.500 pares de sapatos, 75 cabeleiras postiças, 50 automóveis de modelo especial. Eugen Schüfftan foi encarregado dos efeitos especiais que permitiram simular a cidade do futuro mas muitos décors (quer da cidade subterrânea, quer da cidade superior) foram mandados construir em Neubabelsberg. O "robot" encomendado ao grande escultor Schultz-Mittendorff (e que hoje se pode ver no Museu da Cinemateca Francesa, adquirido por um donativo da Fundação Calouste Gulbenkian) custou fortunas. Nunca se fora tão longe. Também nunca um filme demorou tanto tempo a rodar (filmagens iniciadas em Maio de 25 e terminadas em Outubro de 26) e a montar. Quando a primeira montagem ficou concluída (verão de 1926) Metropolis durava 2h30m o que, à época, pareceu excessivo.

Começaram então as aventuras até à estreia de 27. A UFA, aterrada com os gastos e temendo que o "tamanho" do filme afectasse a carreira, impôs drásticos cortes, reduzindo a obra para aproximadamente duas horas. Afectou-se assim sensivelmente tanto o filme como a lógica do "script" que Thea Von Harbou, co-autora dele e então mulher de Lang, publicaria em volume, em 1927, com a grandiosa dedicatória: "Para Ti, e para a Alemanha".

Mesmo assim, apesar da aclamação da crítica (em parte, reticente por motivos extracinematográficos, já que a moral do filme e a sua conclusão com a reconciliação das classes, pareceram assaz suspeitas em meios de esquerda) o filme foi um colapso financeiro, queixando-se o público de nada entender. A UFA disse ter perdido, com Metropolis, 3 milhões de marcos. E, na distribuição internacional, mais cortes foram feitos (a versão estreada em Portugal em 1928 durava 80 minutos).

Quando veio o sonoro, Metropolis, como os outros filmes mudos, foi arrumado numa prateleira e só devido a alguns, não foi pura e simplesmente queimado. Mas quando Hitler subiu ao poder e Lang se recusou a colaborar com ele (emigrando) as cópias alemãs deste filme (apesar de tudo as mais completas), como as dos outros filmes do autor, foram destruídas. Veio a era das primeiras Cinematecas, de Langlois e de Iris Barry (finais dos anos 30). E, quando esses pioneiros tudo tentaram para salvar o que restava do cinema do passado, não tiveram à sua disposição, no caso de Metropolis, mais do que a versão que circulara na América, remontada por Channing Pollock, com 3.170 metros em vez dos 4.189 iniciais (cerca de 95 minutos). A partir dela se fizeram as cópias de Metropolis que circularam desde os anos 40, incluindo uma na Cinemateca Portuguesa. Muitas imagens (célebres devido a fotografias) como a do estádio, dos arranha-céus vistos em "plongé", do monumento de Frederson à memória da mulher que morrera, ou da entrada de Brigitte Helm no Yoshimara "night-club" dentro da gigantesca concha, nenhum menor de 90 anos as viu no filme até aos anos 80.

E, embora no caso de Metropolis se tenha recuperado e incorporado nas cópias a partitura original de Gottfried Huppertz (de que aliás Lang nunca gostou muito) e que nos anos 20, como era de uso, orquestras ou piano executavam durante as projecções, que era feito das tintagens originais (que se sabia terem sido feitas), ou onde se podia aperceber a qualidade original do trabalho de Freund e Rittau (os operadores) irremediavelmente distorcidas pelo contratipo donde se extraíram as cópias? Acaso veríamos Metropolis quando víamos a cópia da Cinemateca Portuguesa, ou uma pálida (palidíssima ideia) do que o filme fora? Certamente era bem isso, como Langlois tantas vezes recordou: a diferença entre Metropolis em circulação, dos anos 40 aos anos 80, e o original era a mesma que vai dum quadro para a sua reprodução. Só que as obras-primas a tudo resistem. Mesmo sem braços, a Vénus de Milo continua a ser a Vénus de Milo. excepto, talvez, na hipótese, nesse caso impossível, de alguém a ter visto, um dia, integral.

Mas, dos anos 40 até hoje, muito se avançou em investigações e técnicas de restauração. Nos anos 80, em Munique, Wiesbaden e Berlim, graças à acção de homens como Patalas, Gregor ou Klaue, muita coisa se descobriu enterrada em velhas latas. E foi assim que, em 1982, tanto a Cinemateca de Berlim como o Museu de Munique, recuperaram versões que, embora em qualquer dos casos ainda incompletas, perfaziam um filme de cerca de duas horas com a inclusão de muito material repetido ou de cenas que o próprio Lang excluíra da montagem original (a de cerca de 2 horas). Baseando-se no "script" de Thea Von Harbou, reconstituiu-se mais ou menos o que teria sido Metropolis.

E digo "o que teria sido", porque mesmo nesta cópia (completada em 1986, e nos anos 90, ainda retrabalhada por Patalas até a duração de 130 minutos da cópia de Munique, que já passou nesta sala) continuaram a faltar muitos planos e sequências e ninguém está certo da correspondência dela com as intenções de Lang.

Foi mais ou menos por essa altura que surgiu a famosa "versão Moroder", com estreia mundial no Festival de Cannes de 1984 e estreia em Portugal a 15 de Janeiro de 1985, em sessão da Gulbenkian e da Cinemateca, aquando do Ciclo de Ficção Cientifica.

Que fez Moroder? Aproveitou parte da versão restaurada por Munique (incluindo várias das sequências que não estavam nas cópias tradicionais) sacrificou outras sequências mais conhecidas e "montou" uma versão sui generis de cerca de 90 minutos, depois tintada segundo os códigos vigentes nos anos 50 (já que o negativo original de Metropolis se perdera) e a que acrescentou, na banda sonora, a sua discutidíssima partitura. E se os "puristas" torceram o nariz, muitos descobriram Metropolis graças aos sons e à música dessa versão e sobretudo viram, pela primeira vez, muitos dos fragmentos mutilados dela. Fragmentos que vimos reunidos a outros na mais completa versão que de Metropolis existe, em sessões organizada pela Cinemateca Portuguesa em 1994, 2000 e várias vezes nesta década.

Os aspectos mais obscuros são os que se referem ao misterioso personagem de Hel, a mulher que Rothwang (Rudolf Klein-Rogge) amara e lhe foi roubada por John Fredersen. A sequência que explicava esse episódio pretérito perdeu-se e tudo o que hoje vemos no filme é o monumento funerário dedicado por Rothwang a Hel, que morreu ao dar à luz Freder. A inscrição é bem explícita: nela, Rothwang acusa Fredersen de, por causa dele, ter perdido Hel. E, ao mostrar o monumento ao rival, Rothwang mostra bem mais que jamais lhe perdoou nem esse "roubo" nem essa morte. Por isso, ao contrário do que pode supor quem apenas conheça a versão "americana" de Metropolis, Rothwang não é aliado de Fredersen: é o seu mortal inimigo.

Porque recorre, então, Fredersen a ele, reatando uma relação há muito interrompida (pelo menos desde o nascimento de Freder)? Porque só Rothwang pode decifrar os misteriosos mapas, devido aos poderes ocultos que tinha. Aparentemente, Rothwang aceita o "pacto", mas só aceita porque esse pacto é a ocasião há tanto esperada para se vingar de John Fredersen. E leva-o à cidade subterrânea, onde assistem à "missa" de Maria e à celebérrima parábola da Torre de Babel. Maria (como se vê por um plano em que Lang filmou a cabeça da estátua de Hel) tem semelhanças com a mulher que ambos amaram. Por isso, quando Fredersen lhe dá a ordem para raptar Maria e para a materializar no "robot" (afim de acabar com aquele culto e desunir os operários) Rothwang pede para ficar sozinho.

Porque quer ficar sozinho e sozinho raptar Maria? Porque o seu plano é muito diverso do de Fredersen. O que ele (Rothwang) quer é programar Maria para que esta incite os operários à revolta e assim destruir o império de Fredersen, aniquilando o seu inimigo. Ao mesmo tempo, fica com Maria (a mulher) roubando-a ao filho do seu mortal inimigo e substituindo Hel. Como escreveu Enno Patalas, antigo Director da Cinemateca de Munique, e figura fundamental na restauração de Metropolis, só se pode perceber este filme se o virmos como história de "ódio, crime e vingança", tema capital de quase toda a obra de Fritz Lang. E se, nas versões tradicionais, essa vertente se perdeu foi porque os americanos nada entenderam da história de Hel e acharam, ainda por acima, que não podiam mostrar uma mulher com tal nome (Hel=Hell=Inferno).

Tudo isto tem muita importância, porque, com base nas versões truncadas, sempre se sublinhou em Metropolis o conflito entre duas narrações. Escrevendo à época sobre a obra, num texto notável, Buñuel falava de Metropolis, "como de dois filmes colados pela barriga". E acrescentava: "Se à história" (cuja suspeita ideologia atribuía a Thea Von Harbou) "preferirmos o fundo plástico-fotogénico do filme, Metropolis cumulará todos os nossos desejos, e maravilhar-nos-á como o mais maravilhoso livro de imagens que algum dia se compôs, como uma arrebatadora sinfonia do movimento. Como cantam aquelas máquinas, no meio de admiráveis transparências "arco-triunfadas" pelas desgraças eléctricas! Todos os cristais do mundo, romanticamente decompostos em reflexos, encontram o seu nicho na concavidade moderna do cinema". Mas hoje pode haver sérias dúvidas sobre se a "história" era tão linear, ou tão dúbia, como se tem pretendido. Embora Lang tenha claramente rejeitado (atribuindo-a, sim, a Thea Von Harbou) a "moral final", com todas as peças do "puzzle" reunidas, podemos perceber melhor como sempre entendeu Metropolis como o espaço dum conflito entre o mundo mágico e oculto (o mundo de Rothwang, da sua vingança e paixões) e o mundo da moderna tecnologia (o mundo de Fredersen). É pela magia que Rothwang se quer vingar de Fredersen e de Freder, filho-maldito (pelo lado do pai) filho amado (pelo lado da mãe). E, assim sendo, é assombroso que o intermediário escolhido seja uma mulher, que, no seu duplo aspecto e no seu duplo rosto, é a única que tem acesso aos dois mundos. Maria como visão angélica (a sua portentosa introdução no filme, no "jardim das delícias" dos Filhos dos Senhores), transposição da imagem de Hel (e qualquer coisa maternal ela suscita logo, quando vem com as crianças e "enfeitiça" Freder, o rapaz sem mãe) e Maria como robot, projecção do ódio-amor de Rothwang à mulher que o traíra e agora será o instrumento da sua vingança. Por isso, o sua personagem é tão complexa e por isso há na "angélica Maria", com as suas parábolas pacifistas, uma "perversidade" (ou um demonismo) que são quase tão explosivos como o do seu duplo maléfico.

Maria (como a sequência da catedral poderá ajudar a compreender) é a personificação do lado religioso das éticas maniqueístas, dominadas na cultura ocidental pelas imagens dos sete pecados mortais e pela Morte que vemos na Igreja. Aqui, o nome da protagonista presta-se a algumas reflexões, bem como o facto da sua ligação a Rothwang ter como espaço privilegiado (pesadelo de Freder) o da imagética gótica recriada na catedral de Lang e o da imagética demoníaca recriada no "night-club". A união dos mundos maléficos dá-se nesses espaços sagrados (santa, ou demonicamente), onde o jovem Freder sempre se perde, engolido por um décor tão estranho ao seu habitat natural como o "mundo das cavernas" que tão ambiguamente o atrai.



JOÃO BÉNARD DA COSTA

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