terça-feira, 4 de agosto de 2026

''Pessoas desesperadas, usadas, empurradas e descartadas por um mundo cada vez mais alucinado, onde a performance vale mais do que a política, onde o teatro e os influenciadores têm mais força do que o custo de vida e onde o ódio convence os pobres a votarem contra si próprios, desde que lhes seja permitido atingir outros pobres.''



''O espetáculo mais deplorável de todos não foi aquela gente desesperada a tentar chegar à Europa.
Foram as hienas a lambuzarem-se obscenamente na desgraça, a olharem para aqueles corpos e a calcularem quantos votos, quantos seguidores e quantos pontos políticos poderiam arrancar aos mortos.
Posso compreender os ignorantes que caem na manipulação.
Não desculpo os traidores que fabricam essa manipulação para chegarem ao poder, custe o que custar e morra quem morrer.
Em Ceuta morreram mais de 100 pessoas (segundo o jornal El-Faro de Ceuta).
Mais de 100 seres humanos manipulados para avançarem sobre a Europa, da mesma forma que, dentro da Europa, se manipula o medo e o ódio contra quem tenta chegar cá.
De um lado, usam pessoas desesperadas para atacar fronteiras e pressionar governos.
Do outro, a extrema-direita usa os seus cadáveres para produzir vídeos, fabricar uma “invasão” e alimentar o algoritmo.
Uns transformam seres humanos em munição.
Os outros transformam-nos em conteúdo para as redes.
E o mais revoltante nesta ascensão da direita radical, em Portugal e no resto do mundo, é aquilo que ela nos obriga a reconhecer:
"Estamos rodeados por muito mais gente cruel do que alguma vez imaginámos."
No meio de uma tragédia humana — uma das que mais vidas ceifou em território espanhol desde 2008, excluindo catástrofes naturais —, Espanha tornou-se o alvo.
Um país que, por defender os seus princípios, não se vergou perante Israel, Trump ou a indústria internacional do ódio passou a ser atacado por aqueles que querem uma Europa dividida, paranoica e de costas voltadas para os valores que fizeram dela o continente com alguns dos países de maior qualidade de vida do mundo.
Este lixo corrói a Europa por dentro.
Engole a verdade e cospe ódio, medo e paranoias.
A morte e o desespero são transformados em TikToks, que é basicamente o único trabalho que os deputados do CHEGA fazem.
Um ataque à soberania espanhola, promovido por Marrocos através da instrumentalização e da morte dos seus próprios cidadãos, é respondido dentro da Europa com acusações contra Espanha e com invenções absurdas espalhadas nas redes sociais.
Sim, aquilo que aparece nos vários vídeos são corpos — muitos deles de adolescentes.
São filhos de alguém.
Irmãos de alguém.
Pais de alguém.
Pessoas que queriam uma vida melhor e acreditaram no que lhes foi prometido nas redes sociais.
E já sabemos qual será a reação dos alucinados da extrema-direita... dirão que a culpa foi deles, que ninguém os obrigou a avançar, que “sabiam ao que iam” e que morreram porque quiseram.
Culpam os mortos pela própria morte para não terem de olhar para quem os enganou, quem os empurrou, quem lhes abriu o caminho e quem depois fechou a porta.
Pessoas desesperadas, usadas, empurradas e descartadas por um mundo cada vez mais alucinado, onde a performance vale mais do que a política, onde o teatro e os influenciadores têm mais força do que o custo de vida e onde o ódio convence os pobres a votarem contra si próprios, desde que lhes seja permitido atingir outros pobres.
A diferença entre aqueles que morreram por acreditarem nas mentiras das redes sociais e aqueles que, deste lado, continuam vivos a engolir as mentiras produzidas pela extrema-direita é apenas essa: uns estão mortos e os outros ainda estão vivos.
O lixo que os manipula é o mesmo.
É o lixo dos gabinetes “pseudo-assaltados”, dos vídeos de chuva falsa, dos espasmos esofágicos, dos haitianos que comiam cães e gatos, do falso terrorista “Ali Al-Shakati” chegado de barco ao Reino Unido e dos menores estrangeiros que “recebiam” 4.700 euros por mês em Espanha.
É o lixo das ligações inventadas entre imigração e criminalidade.
É a mentira e teatro como política.
É a confusão propositada entre entradas irregulares e imigrantes que trabalham, têm residência, meios de subsistência e não possuem cadastro...Pessoas a quem se recusa documentação porque alguns partidos descobriram que é politicamente mais útil mantê-las ilegais, vulneráveis e exploráveis.
É este o veneno que contaminou a Europa.
O chico-espertismo no topo e os frustrados ao seu lado a aplaudir o dono.
De um lado, há quem manipule pessoas desesperadas para as lançar contra uma fronteira.
Do outro, há quem use essas mesmas pessoas como bode expiatório, distração e combustível eleitoral.
E, quando se olha com atenção, os que empurram as vítimas do lado de lá e os que exploram os cadáveres do lado de cá parecem sempre demasiado confortáveis uns com os outros.
Mais de 100 pessoas morreram.
E, antes de os corpos arrefecerem, já havia quem estivesse a fazer tik toks...''

 Eduardo Maltez Silva

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