A luta entre a autonomia e a dependência é o mote de Ballad of Sexual Dependency, resume Nan Goldin a meio do filme, sobre a sua mais icónica série fotográfica. Ao ritmo da vida, clica-se dentro e fora de paredes. Nas fotografias, pairam suspeitas sobre o amor romântico ou compulsivamente cis, mas a intenção crítica só se revela no conjunto: entre imagens, examinamos uma linguagem corporal genderizada onde a violência contida se concretizará no extremo. A foto serve de documento e essa é a sua voz: a denúncia concreta do abuso devolve o poder à vítima. A atacada auto-retrata-se tal como está: depois de quase ter morrido, a própria Nan Goldin nada tem a perder. Por isso, amplifica o grito - publica tudo.
All the Beauty and the Bloodshed é, afinal, sobre a sobrevivência às várias mortes. Nem ataques, nem perseguições nem overdoses bastaram para levar Nan Goldin. Nem a dor de testemunhar a liberdade amputada à sua irmã, institucionalizada por homossexualidade e perdida para o suicídio. Nem o ziguezague entre famílias temporárias. Nem a lista de amigos extintos por HIV. Nem a violência da doença vista de perto. Nem a película que guarda todos os rostos já desaparecidos. Depois de encontrar na fotografia um meio de experienciar o mundo, Nan Goldin encontrava na comunidade LGBT a verdadeira família que a acompanhou em sinergia artística, até ser dizimada pelo HIV, epidemia com que a crise dos opióides presentemente compete (faz-nos crer).
A voz de Nan Goldin sobrevive a cada soluço engolido, apelando à não-estigmatização da doença - seja a doença a SIDA, a depressão ou a adição a comprimidos. Ninguém pode julgar o sofrimento nem a cura. A dor espalha-se, ‘‘nesse negro insuportável’’ de resistir, mas a artista resiste e a arte também. Acompanhando a acção do grupo P.A.I.N. (Prescription Addiction Intervention Now), o documentário de Laura Poitras (2022) segue-lhe o incansável activismo, até ao presente a gritar - entre filmes, fotos, exposições, instalações, flash mobs - pelo direito de cada corpo à sobrevivência.



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