- Pour continuer à faire marcher le monde?

Leave a Comment
- Oui, pour continuer à t'aimer. 







HOMEM #1 - Li que algumas pessoas, cegas de nascimento, podem agora ter a sua visão, mas algumas enlouquecem porque não conseguem ver.
MULHER #2 - Como?
HOMEM #1 - Eles vêem mas não sabem o que escolher. Não sabem distinguir certas superfícies, certos objectos. Quando somos pequenos, aprendemos como captar esta realidade, somos ensinados. Eles não sabem como fazê-lo. Por exemplo, Josette, se olhares para a rua, vês tudo parecido.
HOMEM #2 - Como uma camera.
HOMEM #1 - Sim. Talvez seja para isso que uma camera serve.
HOMEM #2 - Talvez seja a história que nos obriga a escolher.
MULHER #2 - E se não houver uma história, digo, em cada um de nós... A cada dia, acordo e pergunto-me "O que é a vida?", "O que é que eu sou na vida?"
HOMEM #1 - Impossível !
HOMEM #2 - Sim. Cada vez que se começa um filme, ou se grava uma cena, é como esse levantar de manhã e perguntar-se, Que azul é esse com esse branco por cima, ou o que são essas caixas sobre os carris...
HOMEM #1 - Mas continua a ser uma história.
MULHER #2 - Sem uma história, não poderíamos conhecer pessoas, ou estar apaixonados.
HOMEM #2 - Tu és a minha história!
MULHER #1 - Uma história é uma história de amor. É o amor que faz as histórias nas nossas vidas.
MULHER #2 - Cada vez que amamos, a história desse amor é uma contagem decrescente até outra história. Eu nasci para o amar. Se não tivesse feito isto e aquilo, se não tivesse conhecido os que mo apresentaram... Apenas o amor dá significado às coisas. 
HOMEM #2 - Não podemos fazer uma história sozinhos. Procuramos alguém para amar e... para fazer uma história de vida, com um princípio, um meio e um fim.
MULHER #2 - Engraçado!
HOMEM #1- O fim de uma história é como o fim do amor. Quando era miúdo, chorava quando terminava uma história de que gostava. Uma pessoa habitua-se.
MULHER #1 - Viver um amor é como ler e simultaneamente escrever uma história. Vê-se a acontecer e, ao mesmo tempo, tenta-se que vá durando. É por isso que o amor é interessante.
HOMEM #1 - Como podemos discutir o amor? Não é um objecto, não é uma máquina nem uma função. Somos nós. Como é que podemos discutir-nos, ou às nossas vidas, como algo interessante?
MULHER #1 - Porque eu não tenho medo de olhar para nós. Tu não te atreves. Assusta-te.
MULHER #2 - Os homens usam o amor para viver mas não conseguem fazer com que resulte. É como conduzir um carro, repetindo-lhe: "Não deixes de funcionar." Eles não conseguiriam arranjá-lo, por isso têm medo. 
HOMEM #1 - Você sai, levanta o capot e arranja o carro. 
HOMEM #2 - É você quem faz andar a história.
MULHER #2 - Ninguém faz uma história andar. Ela vai!
HOMEM #2 - Você disse...
MULHER #1 - Vemos uma manutenção diária. Não o conduzimos. Segue sozinho até ao acidente. 
HOMEM #2 - Acidente?
MULHER #1 - Um acidente acontece sempre em todas as histórias. Quem diz que uma história tem de acabar? Toda a gente quer que dure, mas acaba. Nem o autor consegue dizer porque é que acaba. É um acidente.
HOMEM #1 - Dizes isso tão friamente.
MULHER #2 - É como a morte. Sabemos que existe mas não acreditamos nela.
HOMEM #2 - Vou morrer nos teus braços.
MULHER #2 - Eu também gostava de morrer assim.

(...)









LES BAISERS DE SECOURS, PHILIPPE GARREL, 1989

0 comentários:

Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

Archives