quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A sobrevivência do Amor :




A câmera-coeur de Garrel é o acto tempo da epifania.

CARMELO MARABELLO em "Journal, Nico"


Drogámo-nos no seu cinema, sonhámos sonhos de sexo e noite, de natureza e de corpos, nós os filhos serôdios do salazarismo, que já nada queriamos nem de deus, nem da pátria e da família apenas aguardavamos a mesada.
Depois de Rossellini, depois de Godard, o cinema rasgava os cânones da teia dos sentidos, da mecânica narrativa, das motivações psicológicas, recuperava do par de namorados esse beijo que é o intenso desejo de filmar, a câmara possuindo a rapariga abandona, pintor e modelo presos pelo rodar da película, prazer consentido e desvendado.

JORGE SILVA MELO em "O Cinema do Filho"




J'entend plus la guitare
PHILIPPE GARREL (1991)


"- Devias fazer o retrato da Lola. Verias que ela tem uma existência própria.
- Eu sei que ela existe, mas podia muito bem ser outra.
- Achas que as mulheres são todas iguais.
- Digamos que sim. É por isso que não quero outra. Sei que se fosse outra seria a mesma...
- Tu, por outro lado, nunca deixarás de procurar a mulher ideal. Hás-de ir mudando sem te dares conta de que a mulher ideal tem de ser criada por ti. Receias o fim de um amor como receias a morte. "Só as grandes coisas têm grandes fins", já dizia Heidegger.
- Quem?
- Um outro Martin...
- Julgas que se vive de citações mas elas só vêm nos livros. E a vida...
- A vida também vem nos livros.
- És um parvalhão!
- O amor foi inventado pelos trovadores.
- Começou nos livros e acabará...
- Quando não tivermos mais livros.
- Talvez sejamos a última geração a amar...
- ... ou a falar de amor."






Le Coeur Fantôme
PHILIPPE GARREL (1996)

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