quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Memórias, II.

Recordo ainda nitidamente uma ocasião, outrora, em minha casa, quando encontrei um estojo de jóias; tinha dois palmos de tamanho, era em forma de leque, com um rebordo de flores decalcadas sobre o marroquim verde-escuro. Abri-o: estava vazio. Posso dizê-lo agora, passado tanto tempo. Mas, na altura em que o abri, vi apenas em que consistia esse vazio: em veludo, numa pequena elevação de veludo claro, já gasto; no encaixe da jóia que nele se perdia, vazio, num pequeno rasto de melancolia mais claro. Por um instante era possível suportá-lo. Mas talvez seja sempre assim para aqueles que foram amados e ficaram para trás.
Rainer Maria Rilke, "As Anotações de Malte Laurids Brigge"

olha todos os defuntos das molduras nos destroços da casa, o meu avô com a caçadeira que o meu pai recusara a encaixar um cartucho e a arrepender-se do cartucho
- Não são assuntos meus
enquanto as mimosas se alargavam no campo do tamanho da noite, a presença da lagoa assustava-o não pelas rãs ou os tucanos, pela água invisível para cá e para lá no silêncio parecida com o sangue que nos anda no corpo....
António Lobo Antunes, "O Arquipélago da Insónia"



Tom Waits por Anton Corbijn

A minha memória não é uma fonte de sofrimento. Certas partes são como uma loja de penhores, outras como um aquário, outras como uma despensa. Julgo que há um sítio onde a memória se distorce como as imagens nos espelhos de feira e é essa área que mais me interessa.
Tom Waits, outubro 1983

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