quarta-feira, 24 de agosto de 2005

: GÉNESE GARREL

( o nascimento de uma nação)



A CICATRIZ INTERIOR, Philippe Garrel, 1972

a carta escreveu-se da terra
ascendida do ventre até ao primeiro rochedo 
onde o nevoeiro poisou à hora da aparição  


Mãe
que espécie de aura é esta que se levanta e me anima
entre as areias e a bruma? 

tudo aconteceu antes disto ainda o quadro era aridez e  
foi como se ela dissesse em segredo: 
- encontra-te comigo na minha casa
o deserto onde qualquer criança nasce do branco
tudo aconteceu antes disto 
ainda os ventos lamentavam no sopé do penedo:

                    não há cura para a transumância 
                    continuam-se os braços históricos da reza 
                    os rebanhos passeiam  a carne temporária do sacrifício

tudo aconteceu antes disto ainda a lua-nova descia aos rostos e
a escassez introduzia os seus corpos

 
Mãe 
talvez não haja por aqui 
coisa mais bonita do que isto: sentires ampliados para filme 
inseminação cromática     impressões do mundo superior

juro um deus qualquer neste ecrã: a cicatriz interior 
debita em electricidade 
a luz de ser luz 
:  cores que respondem com universos
à avidez secreta de qualquer fome 
reforjando milagres com as palavras incessantes
da alucinação fiz espera e depois aconteceu-me: NICO
            


: voz da Deusa formulando fantasmagoria 
regressados os céus da tempestade humana 
- ela reza - 
nem a brancura do manto que me cobre
esconde a vergonha de ser corpo


quando explodirá este vulcão 
onde todos os gritos engolidos
ocupam uma colossal garganta?
que me dirás tu
Mãe
que me trouxeste por dentro
sobre os maciços cavernosos 
onde os espíritos se fazem nas formas?
Mãe como sou livre afinal na minha finitude
esgoto o futuro em todos estes possíveis ~ 
mas
como não endeusar o que 
assim expia a fome? a esperança de ainda ~~~
ecoando para longe a sua canção insatisfeita

MAS 
sempre consenti uma tragédia ao peito
se me chegou por grandes imagens
 como se presenteasse a paisagem 
com uma humaníssima necessidade de ordem
GRAÇA tu que me lançaste para o choradinho da geração
 alucina comigo medidas-mínimas para o mundo 
livra do caos as minhas rosas 
lambe de orgulho as minhas feridas

tudo aconteceu antes disto e eu 
com sede de já não ser
guardo dentro de mim esta grande guerra
bato-me pelo que não sei se existe
tudo aconteceu antes disto: À GENESE 
desalucinaram-me
desenterram-me de astros e artes 
fui morar longe das batidas de cavaleiros e 
desse vermelho-lava que parecia verdade
Mãe 
(escolhe para mim um comum entre os comuns
despede-te nas lágrimas do consentimento e
borda nos regaços : la vie nouvelle

contágio por chegar
dor das águas e das pressas : memória prenhe de ares 
donde se ouvirá o grito que 
inaugura a primeira existência
: música do princípio a matéria dos corpos oferecendo-se

: soberania viril de rotas
: embalo de cá continuar a raça
o repetitivo RITUAL das MÁGICAS
ESPUMA essa voz de tempo rasga REGRA sobre mim
: fronteiras de mulher donde cresce um corpo
Mãe 
onde estás tu agora
que adoeci de grande? 
- são dias de dez mil anos de alma já

fina pele a estalar de sóis

porque já tudo aconteceu
não se afogam mágoas entre a pele e o linho 

: não haverá vida possível depois deste deserto


tudo parece ter acontecido antes disto  
: bêbedos hoje os nossos passos são baladas 
despidas lembranças de futuro
estradas do medo ~ cabelos cinza ~ vincos da idade
: é sintoma de CINEMA
a movimentação dos meus traços? 
 o rodopio de acontecer não descansa e
a este entusiasmo sem fôlego chamo juventude
pássaros são pássaros ~ cartas lançadas para revelar os paraísos por ver 
          uma prescrição fictícia 
um cinema de ser!

Mãe
o que deve o meu corpo 
à outra História que eu não fui? 

                                                                                                                        - será que a deusa se cansou da vida? 
                                                                                                                        - o que acontece à imortalidade que se cansou da vida? 

tudo aconteceu antes disto e eu
condenada a desejar como todos
cá estou novo passeando pelo anterior prometido  
para sempre escavando as paisagens da alma por dentro:

tudo o que aconteceu antes disto  
virou sala escura 
virou solidão aberta
virou filme
 filme como verdade
uma verdade qualquer
Mãe  
ainda hoje sei pouco 
mas sei que 
poesia é um quadro de Garrel 


6 comentários:

  1. (uma vez, talvez cedo demais, vi este filme e precisei esquecê-lo e reencontrá-lo para perceber a que profundidade desce e a que beleza se eleva. há pouco tempo deixei um excerto no blog a propósito de um pretexto errado - uma música - mas era do vídeo que vinha a hipnose. isto não interessa nada, mas o texto, que é (...) interessa muito.)

    o texto é teu?

    ResponderEliminar
  2. Fui eu que escrevi o texto, certo, num tom mais íntimo do que o habitual por aqui, inseminado pela poesia destas imagens que hão-de persistir para sempre. De tal modo, que não me é sequer possível conceber a possibilidade de serem renegadas...

    ResponderEliminar
  3. ( Certamente, a revisão tinha de chegar.)
    Interessam-te outros trabalhos do Garrel?

    ResponderEliminar
  4. muito. não precisei de muito para o ter como uma das minhas adorações, porque a verdade é que até vi muito pouco dele. para além dos três deste século, incluindo o sauvage innocence, só conheço o l'enfant sécret e o cicatrice intérieure. mas o modo como filma, o seu silêncio e as suas sombras, o modo como olha para os olhares a cruzarem-se, é-me demasiado próximo e é-lhe demasiado próprio. ou seja, não deve ser ignorado e não, não se concebe que possa ser renegado.

    (agora que me lembro, também deixei há pouco tempo um excerto d'os amantes regulares, a cena de dança que irrompe do silêncio, que é um dos momentos mais bonitos que conheço no cinema.)

    o texto é mesmo (...)

    ResponderEliminar
  5. :)

    (e nem tinha reparado no subtítulo apropriado do post)

    ResponderEliminar