sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Arte da mise-en-scène

Melancholia, Lav Diaz (2008)

"Ainda ontem, em conversa com um grande cinéfilo, nos lembramos de como João Lopes, ao considerar Casino, de Scorsese, o melhor filme dos anos 90; ou como em qualquer outro lado ele defendia o “Ocean´s 11”, de Soderbergh, como uma portentosa lição de mise-en-scène, precisamente, dizendo qualquer coisa como: «quando Picassso pintava uma peça de fruta, todos achavam uma obra-prima” (cito de cor); ou de como ligava o mesmo Casino á obra, precisamente de Hitchcock ou de Godard: “Repor a ordem no caos que é este mundo”. A minha opinião é esta: hoje em dia haverá, ainda mais que no período clássico, um elemento que têm que prevalecer junto da puramise-en-scène ou exercício estilístico: a duração; ou gravidade.

É o que separa, por exemplo, os excepcionais planos do filme dos Coen, dos planos dos anúncios dos perfumes, ou do Moulin Rouge. A arte da duree. De fazer durar uma imagem, de a ligar com a seguinte, com uma lógica intrínseca."

José Oliveira in
arte da mise-en-scène

East of Eden.





quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sugestão.

sábado, 3 de outubro de 2009

PROGRAMA DA CINEMATECA :

CONTAR O TEMPO

Programação: Ricardo Matos Cabo

contar-o-tempo.blogspot.com

2 a 30 de Outubro de 2009




casting a glance, James Benning

RETROSPECTIVA.


Olhar o cinema de
Manuel Mozos


PARTE II



OUT. 29 | 21H30

CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS. (2000, 11')
UM PASSO, OUTRO PASSO E DEPOIS... (1989, 58')

OUT. 30 | 21H30
XAVIER (1992, 101')

OUT. 31 | 18H30
SOLITARIUM (1996, 4'40'')
QUANDO TROVEJA (1999, 89')

OUT. 31 | 21H30
4 COPAS (2008, 104')

-> 2€ | CENTRO CULTURAL DA MALA POSTA

o nosso caso.


Não estou contra os jornalistas (...), mas realmente preocupam-me. Preocupam-me porque conseguem escrever sobre coisas que não sabem com um grande à-vontade. (...) Convém que os jornalistas estejam informados das coisas antes de falarem, saibam um bocadinho o que estão a dizer. E depois eu sinto que cada vez há mais grupos no jornalismo favoráveis ao realizador X ou contra o realizador Y, publicando grandes fotografias de um realizador ou de uma actriz, e sobre outra que é tão boa ou outro que é tão bom não escrevm nem uma linha. (...) Porque o problema em Portugal é que ninguém vai ver cinema português, mas todos se acham no direito de falar dele. Lembro-me perfeitamente de em 1964 ou 65', haver um programa na RTP, um programa cultural que, já não sei porquê, veio na época parar às mãos do António Pedro Vasconcelos e às minhas. E nós decidimos fazer um número sobre o cinema português. Entrevistámos o Paulo Rocha, entrevistámos o Fernando Lopes, entrevistámos a actriz do filme do Paulo, Os Verdes Anos, a Isabel Ruth (...). O número foi proibido pela censura, porque as pessoas diziam o que pensavam da situação do cinema em Portugal. A meio dos anos 60. (...) A segunda metade dos anos ´40 até aos anos '60 foi péssima para o cinema português. Os filmes são absolutamente idiotas, nulos sobre todos os aspectos. Mas também é verdade que esse cinema tinha um público regular. (...) O que era surpreendente é que estava toda a gente vestida de preto. E isto é muito sintomático porque, nos anos '60, quem se veste de preto são as pessoas da província acabadas de chegar a Lisboa. E portanto, era gente que não sabia ler e que ia ao cinema ver filmes falados em português. Este era o público real do cinema português nos anos 50', 60'.
Alberto Seixas Santos, 2006, in "Ler Cinema : o nosso caso"

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

The Scarlet Letter e o protagonismo de Lilian Gish


THE SCARLET LETTER / 1926
 Victor Sjöström


Victor Sjöström chegou aos EUA em 1924 contratado por Mayer na sua caça aos talentos que, como se sabe, juntamente com a dos outros estúdios acabou por desvitalizar a indústria do cinema na Europa concentrando os melhores artistas e directores em Hollywood. Sjöström, com o nome “americanizado” para Seastrom (como vemos no genérico deste filme) acabou por ser o director do filme que iniciou a actividade na nova companhia criada por Mayer e seus sócios, a MGM: He Who Get Slapped que foi um êxito de bilheteira. The Scarlet Letter foi o seu quinto filme americano, tendo Sjöström sido escolhido por Lilian Gish para realizador. O filme foi outro sucesso comercial que levou a uma nova colaboração da actriz com o realizador dois anos depois de que resultou a obra prima The Wind. Mas o fracasso de bilheteira deste (que resultou principalmente da “revolução” do sonoro) pôs praticamente fim à carreira americana de Sjöström (só fez lá mais um filme, regressando depois à Suécia).

The Scarlet Letter é, antes de mais, um projecto de Lilian Gish. Na sua autobiografia, “The Movies, Mr. Griffith and Me”, a actriz conta que após a conclusão de La Bhoème (King Vidor) não aparecia qualquer projecto para ela. Foi Lilian que sugeriu a Mayer a adaptação de The Scarlet Letter. “Mayer concordou que era uma boa história mas “Não a podes fazer”, disse ele. “Está na lista negra”. “Como é possível?”, retorqui. “Trata-se de um clássico americano, de leitura frequente nas aulas”. “Não interessa. A igreja e os clubes de mulheres baniram-no”, respondeu ele.

Não foi isso que fez desistir Lilian Gish. A sua imagem de “pureza e inocência” transmitida por um dos filmes favoritos dessas ligas, The White Sister de Henry King, serviu-lhe de “garantia” quando escreveu a essas organizações pedindo que levantassem a “proibição” assumindo-se como inteira responsável pelo projecto. Pouco depois Irving Thalberg disse a Lilian e à argumentista Frances Marion que podiam avançar com a adaptação, pois as Ligas consideravam  “Lilian Gish como a mulher certa para o papel”: “Por  mais pecado que o filme transpire, todos sabem que será moral se Lilian for a pecadora” (Julian Smith num estudo sobre o filme). Evidentemente que isto impôs uma série de alterações à história contada por Nathaniel Hawthorne, de forma a “encaixá-la” nas exigências das várias censuras. E a principal foi a que transformou a Hester Prynne de Hawthorne numa personagem conforme à imagem de Lilian Gish. Sendo esta a responsável pelo projecto é dela a escolha do realizador (Sjöström) e dos seus colegas (Lars Hanson com quem voltaria a trabalhar, de novo sob as ordens de Sjöström, em The Wind, e Henry B. Walthall, o seu galã de The Birth of a Nation), e também das alterações a essa imagem: “A minha ideia era apresentar Hester como uma vítima das circunstâncias, arrastada pelo amor”. A Hester do filme é Lilian Gish e não a personagem criada pelo escritor. Ela própria o reconheceu e aceitou ao afirmar que se considerava demasiado imatura para o papel (“Ela era uma mulher, eu parecia uma criança”), mas o toque de génio da actriz foi torná-la convincente e aceite pelo público. Para sublinhar a personagem daquela forma os outros tiveram também de sofrer alterações: Dimmesdale, por exemplo, parte para Inglaterra sem saber da gravidez de Hester; Chillingworth (Roger Pryne, o marido de Hester) só aparece muito tarde e apenas para servir de catalisador da confissão pública de Dimmesdale. A sua imagem sofre também outras alterações aparecendo ao espectador como uma espécie de judeu errante, e ao público português como um outro, o Romeiro de Frei Luís de Sousa de Garrett.

Repare-se bem no que atrás tem sido dito. Scarlet Letter “desenha-se” como uma produção de “actor” mais ou menos próximo de um critério moderno: o nome da vedeta que impõe um argumento (aqui não só ao estúdio como às Ligas de moral), o altera de acordo com a sua imagem e escolhe a equipa técnica e artística. Uma achega importante para os que se referem ao cinema como um trabalho de “equipa” (que o é de facto), para apagar o papel do realizador (a anti-”politique d’ auteur”). Caberia aqui perguntar qual é então o papel de Sjöström nisto tudo: o de mero “retratista”? O “homem da máquina” como desdenhosamente produtores e actores se referiam a George Pallu no cinema português dos anos 20? No fim de contas a visão deste belíssimo filme pode ser a melhor resposta a todas essas polémicas mais ou menos descabeladas. Se os valores de produção são importantes neste filme a mão de Sjöström paira permanentemente sobre ele deixando a sua marca inconfundível. Desde logo o começo: aquele movimento de câmara que vai dos sinos até às pessoas na rua a caminho da igreja, passando pelo pelourinho. Depois na organização do espaço. As imagens do seu filme sueco Ven Domer, de 1921, acordam na memória face à distribuição “geométrica” dos figurantes na rua (a caminho da igreja) e dentro do templo, e todas as cenas finais com os desfiles dos militares, a praça e o pelourinho onde Dimmesdale se vai expor e denunciar. Depois a exploração simbólica da paisagem com as sequência com o marido de Hester e a paisagem da sua casa numa espécie de ermo desolado evocando paisagens trágicas de Terne Vigen e de Korkarlen. Finalmente o profundo erotismo que perpassa pelo filme (apesar de todas as Ligas de moral) que vai da fabulosa sequência da perseguição ao pássaro pelo bosque em que a pouco e pouco o cabelo de Hester se vai desfeiteando, à irresistível cena das calcinhas (!) que Hester esconde do olhar do pregador e que culmina numa das mais sugestivas cenas do cinema de Sjöström: Hester e Dimmesdale andando pelo bosque, a desaparição atrás do arbusto e o seu regresso de mãos dadas. Tudo o que aqui se vê (e se sugere) mostra que das duas uma: ou Lilian Gish se aproveitou da sua imagem para mostrar uma outra bem mais interessante, com a cumplicidade de Sjöström, ou as Ligas de moral andavam muito distraídas em busca do pecado por outras redondezas. Poucas vezes o erotismo foi tão transparente num filme mudo americano.



Manuel Cintra Ferreira

Discutir a pena de morte.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Surroundings

Isaac Levitan

Juventude em Marcha, Pedro Costa

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Carnaval Carnal



 



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Czaradox em pausa, dias felizes



Setembro e Outubro serão a meio gás por aqui.

Entretanto, para Lisboa, deixo sugestões para que visitem o Queer (18 a 26 de Setembro) e entretanto o Doc Lisboa (15 a 25 de Outubro). Espreitem a programação da Cinemateca este mês vale mesmo a pena, e o Arena , a curta que Salaviza viu premiada em Cannes está finalmente em cartaz, acompanhando a exibição do filme "Taking Woodstock", de Ang Lee. Até 20 de Setembro, pode visitar-se na Fundação de Arte Moderna e Contemporânea a exposição Art Déco, cedência temporária da colecção Berardo. De 9 de Setembro a 8 de Novembro, podem assistir-se em vários pontos de Lisboa a colóquios, debates, exposições respeitantes ao Experimenta Design. De 24 a 30 de Setembro pode ver-se A Orelha de Deus, texto de Jenny Schwartz encenado por Cristina Carvalhal no pequeno auditório da Culturgest e dia 11 de Outubro revivem-se bandas-sonoras de Braveheart, Grease, entre outros, com a Lisbon Film Orchestra no Parque Mayer. Podemos ainda assistir, pelas mãos do encenador Jorge Silva Melo e dos Artistas Unidos, a "Seis personagens à procura de um autor", um dos textos mais famosos de Pirandello, até 18 de Outubro no S.Luiz. Nas quartas feiras 7, 14, 21 e 28 de Outubro, a Faculdade de Cências Sociais e Humanas (UNL) recebe às 14.30h uma sessão do Ciclo El Mês + Corto, festival audiovisual internacional organizado desde 2001 pelo Instituto Cervantes de Lisboa. E a 21 de Setembro começa a Temporada de Música da Gulbenkian. De 7 de Outubro a 10 de Novembro, volta A Festa Do Cinema Francês, que engloba inúmeras actividades, entre as quais uma selecção de curtas metragens por João Garção Borges e uma retrospectiva de Jeanne Balibar na Cinemateca, uma retrospectiva de Agnès Varda, que se complementará com duas instalações da realizadora nunca antes mostradas em Portugal ("Bord de Mer" e "Le tombeau de Zgougou"), na Fundação Serralves. A presença de Agnés Varda estará prevista para 19 de Outubro na Cinemateca Portuguesa. Ainda na sequência deste festival, Jane Birkin virá ao CCB a 8 de Outubro. A 25 de Setembro, como última das exibições do ciclo de documentários "Arte Projectada", temos a oportunidade de ver em Sintra o documentário "Home", de Yann Arthus-Bertrand. E a versão de "o Sangue" de Pedro Costa, volta aos cinemas em Setembro. Imperdível.


Tenham dias felizes.

sábado, 29 de agosto de 2009

Take a walk on the Ray side.



Passeio com Johnny Guitar
JOÃO CÉSAR MONTEIRO (1995)



Revia há pouco o "Aquele Querido Mês de Agosto", a passar na RTP2, e no fim, o Vasco Pimentel dizia, poetica e assertivamente, que captava o som que queria. Que em qualquer realidade onde se encontrasse, seleccionava a banda-sonora do seu momento, dando ênfase aos sons que lhe interessavam.
Olho para esta curta metragem, exemplo de que o sentido máximo do Cinema é o do espectador. O espectador de todas as eras, sempre em posse de uma memória, instrumento de captação único e de reinterpretação artística ímpar (Cada recordar de um filme é, em si, um novo filme). E é nesses seus ecos que se ouve Hollywood clássica nos bairros lisboetas de 1995. E faz todo o sentido.


(Um obrigada à professora Manuela Viegas, por me relembrar disto, em tom oportuno legendando-o: "Um sentimental ao microscópio... Um estudo sobre a aura (da película também)...")