terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

gosto dos corpos que riem

Man Undressing Shirt, David Byrd, 1994


Truque do meu amigo da rua
AL BERTO
ao acaso encontrei-te encostado a uma esquina
olhar vazio varrendo a multidão, parei
sorri e tu vieste, fomos andando
os ombros tocavam-se, em direcção a casa

pediste-me para tomar um duche, eu deitei-me
ouvi o barulho da água resvalando pelo teu corpo sujo de
cidade e de engates
sujo pelos dias e noites e mais dias que te não tive
esperei-te deitado, outro cigarro
e ainda espero
gosto dos corpos que riem, frescos
rasgam-se à ternura nocturna dos dedos, e ao desejo
húmido da boca, que sempre percorre e descobre

tacteio-te de alto a baixo
reconhecendo-te num gemido que também me pertence, no escuro
contaste-me uma improvável aventura de tarzan, ouvia-te
e no silêncio do quarto fulguravam aves que só eu via

sorri ao enumerar os restos que a manhã encontraria pelo chão
manchas de esperma, ténis esburacados, calças sujíssimas,
blusão cheio de autocolantes, peúgas encortiçadas pelo suor
as cuecas rotas, sujas de merda

e tuas mãos, recordo-me
sobretudo de tuas mãos imensas sobre o peito
teu corpo nu, à beira da cama, em sossegado sono

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

STEREODOX: Mildred Peirce

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

The life amongst.

The ghost and mrs. Muir (1947), Joseph L. Mankiewicz

sábado, 7 de fevereiro de 2009

And I wonder I wonder what I am



 
Erotikon (1920, Mauritz Stiller) 

 
 Pabst 1931 L'opéra de quat'sous 

 Avant Petalos Grillados, Cesar Velazco Broca

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

um país / aonde o puro pássaro é possível

O Portugal Futuro

O portugal futuro é um país 
aonde o puro pássaro é possível 
e sobre o leito negro do asfalto da estrada 
as profundas crianças desenharão a giz 
esse peixe da infância que vem na enxurrada 
e me parece que se chama sável 
Mas desenhem elas o que desenharem 
é essa a forma do meu país 
e chamem elas o que lhe chamarem 
portugal será e lá serei feliz 
Poderá ser pequeno como este 
ter a oeste o mar e a espanha a leste 
tudo nele será novo desde os ramos à raiz 
À sombra dos plátanos as crianças dançarão 
e na avenida que houver à beira-mar 
pode o tempo mudar será verão 
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz 
mas isso era o passado e podia ser duro 
edificar sobre ele o portugal futuro 

Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]' 

Vida-Morte.



"não sou sujeito nem objecto, mas essencialmente um sujeito que sente que transforma em objecto: vivo então uma microexperiência da morte (do parêntese) torno-me verdadeiramente espectro. O Fotógrafo sabe isso muito bem e ele próprio receia (nem que seja por razões comerciais) essa morte na qual o seu gesto me vai embalsamar. Nada seria mais divertido (se não fôssemos nós as vítimas passivas, os plastrões, como diria Sade do que as contorções dos fotógrafos para dar "dar vida". Ridículo! (...) Aterrado, o Fotógrafo tem de lutar imenso para que a Fotografia não seja Morte. (...) aquilo que vejo é que me tornei Todo-Imagem, ou seja, a Morte em pessoa (...) Na Fotografia, a presença da coisa (num determinado momento passado) nunca é metafórica; e, no que respeita aos seres animados, a sua vida também não, salvo se fotografarmos cadavers. Nesse caso, se a fotografia se torna horrível é porque certifica, por assim dizer, que o cadáver está vivo, enquanto cadáver: é a imagem viva de uma coisa morta. Porque a imobilidade da foto é como que o resultado de uma confusão perversa entre dois conceitos: o Real e o Vivo.”
ROLAND BARTHES, A CÂMARA CLARA


daqui, um pouco de fotografia Post-mortem por Zeebrouck, hábito corrente no século XIX, que imortalizava as figuras cadavéricas, tão regularmente precoces.


Mistério.

"Gostaria de convidar todas as pessoas a vadiarem pelo mistério"
- Agostinho da Silva

Edvard Munch - Two Women on the Shore

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

(love is for making)



O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres
vivos como tu e eu
para se deixar enxergar
ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir
Kjærlighet finnes ikke
eller er usynlig og trenger levende
vesener som deg og meg
for å komme til syne
eller: kjærlighet er en praksis
en sky musikk den kan ikke alltid høres

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ainda perturbada.


Les Maîtres Fous
JEAN ROUCH (1953)


“O páthos do espanto não está simplesmente no começo da filosofia, como, por exemplo, o lavar as mãos precede a operação do cirurgião. O espanto carrega a filosofia e impera em seu interior”

(HEIDEGGER, in "Conferências e escritos filosóficos")

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

marco musical do cinema


SE BELLA GIU SATORE
JE NOTRE SO CAFORE
JE NOTRE SI CAVORE
JE LA TU LA TI LA TWAH

LA SPINASH O LA BOUCHON
CIGARETTO PORTOBELLO
SI RAKISH SPAGHALETTO
TI LA TU LA TI LA TWAH

SENORA PILASINA
VOULEZ-VOUS LE TAXIMETER?
LE ZIONTA SU LA SEATA
TU LA TU LA TU LA WA


MODERN TIMES (1936)

A Ti.

Aquela velha música passa na rádio, e eu tenho a certeza que é o acaso a falar comigo.





Sair da Caverna, III



Nunca fui a maior fã dos sociólogos.
Mas acho que hoje o Compte acertou-me:

"Social positivism only accepts duties, for all and towards all. Its constant social viewpoint cannot include any notion of rights, for such notion always rests on individuality. We are born under a load of obligations of every kind, to our predecessors, to our successors, to our contemporaries. These obligations then increase or accumulate, for it is some time before we can return any service. ..."