terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Rotações de cidade pulsam sem descanso :



All or Nothing
MIKE LEIGH (2002)


Esta é a Cidade
Esta é a Cidade, e é bela.

Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!

António Gedeão

William Eggleston










segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Sobre o amor,



disse a senhora.
Gonçalo M. Tavares




a poesia: impossível amar a mulher indiferente à poesia, disse a senhora D.
É como a obsessão de cheirar a flor sem cheiro ou de procurar a base sólida de um mágico que levite- é assim: não percas tempo: as mulheres realistas a mais, números, dinheiro e roupa demasiado cuidada à volta das ancas. Se ela não gostar de poesia não gosta de movimento: é pois mulher-estátua - disse a senhora D.
Podes levá-la para um passeio à volta do mundo que ela manterá a cabeça fixa no ponto de partida. Tudo organizado como o cérebro que se organiza inteiro para o dia inteiro nos obrigar ao tédio.


o som sobrevivente: a música, disse a senhora D., é o som a que alguém deu mais valor do que aos muitos outros sons que cabem num dia. Há som borboleta que encanta meninas adolescentes e há som que é quase silêncio que costuma encantar os mais velhos (se ainda não morreram, é porque estão mais sábios)-
Claro que no apocalipse vai aparecer, vindo não se sabe de onde, um som - ruído último, e depois dele provavelmente nada. zero. Se não há ouvidos como poderia existir som?
Porém, se o planeta ressuscitar ao terceiro dia, com base numa outra voz, num outro chamamento capaz de acordar as múltiplas coisas da natureza. Esse som não será uma palavra. Esse som resultará, sim, do encontro entre dois corpos.

portanto: "No end to the sound of the making love", como escrevia o poeta Ferlinghetti.

dia branco: Dizem-se coisas lindas quando uma mulher regressa aos braços do seu homem ou vice-versa, disse a senhora D.
Catulo, nascido no ano 87, romano, poeta do amor e da despaixão, depois dela (a mulher) voltar - quando ele já não esperava- diz:
"Ó dia de assinalar com pedra branca! Quem sobre a terra, mais feliz do que eu, quem poderia encontrar na sua vida uma coisa mais desejável?"

o inútil: Claro que nela a beleza se tornara inútil: havia casado e era fiel- disse a senhora D.

domingo, 21 de dezembro de 2008

STEREDOX: From here / From her

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Lolabelle


«This is my dream body. The one I use to walk around in - in my dreams. In this dream I'm in a hospital bed. And it's like a scene from a movie you've seen a million times. The doctor is holding a small pink bundle. And he leans over the bed. And he hands me the bundle. "It's a girl" he says. "Isn't she beautiful, look!" And wrapped in the bundle, I see the little face of my dog. A small rat terrier, named Lolabelle. And no-one says anything like "Y'know, this is not a human baby... You just gave birth to a dog." But I'm so happy. I put my head to her forehead, and look into her eyes. And it's almost a perfect moment - except that the joy is mixed with quite a lot of guilt. Because, the truth was, I had arranged this whole thing. I had arranged to have Lolabelle sewn into my stomach. So that I could then give birth to her. And this had been really hard to do. Lolabelle wasn't a puppy. She was a full grown dog. And she had really struggled. And she kept barking and trying to get out, and the surgeons kept trying to push her back in and sew things up - and it was really a mess and I felt really bad about it. But it was just the way, y'know, things had to be
Anyway, I kissed her on the head. And I said "hello little bonehead, I'll love you forever."»
Laurie Anderson, “Birth of Lola”

STEREODOX -Somewhere to fit in / Something that's fitting

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Já gastámos as palavras.

CRONOCA DI UN AMORE, ANTONIONI, 1950


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Eugénio de Andrade

domingo, 14 de dezembro de 2008

TEORIA DA FOTOGRAFIA.



"A primeira imagem que me impressionou muito encontrei-a no livro "Americanos", de Robert Frank. Era uma espécie de entrada de bar, com um vulto em sombra e ao fundo um indivíduo vestido à cowboy com ar desafiador. Na fotografia há um lado humano e à flor da pele que não necessita de convocar o pensamento do especialista. Tento preservar esse olhar. Em casa não tenho fotografias nas paredes. Gostar ou não gostar de fotografia é como gostar ou não gostar de linguagem"
 Sérgio Mah

sábado, 13 de dezembro de 2008

O chapéu de Tchékov


O chapéu de Tchékov
ALEXANDRE O'NEILL (1979)

tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro

gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra

gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça

tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão




Poeta Castrado, Não!
ARY DOS SANTOS

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
--- é tão vulgar que nos cansa ---
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
--- a morte é branda e letal ---
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
--- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
--- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!


"Eu, Sempre..."
CESARINY (EXCERTO DE "VIRGEM NEGRA")

Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.

reféns do nada

mais um dia:
tanta vista curta
diluindo a linha do horizonte.

L'étrangleur, Paul Vecchiali, 1972

A CÂMARA AMA-TE.

Cap. 5 de (A)tentados, de Martin Crimp




A câmara ama-te.
A câmara ama-te.
A câmara ama-te.

Precisamos de simpatizar.
Precisamos de empatizar.
Precisamos de publicitar.
Precisamos de realizar.
Nós somos os bons rapazes.
Nós somos os bons rapazes.

Precisamos de sentir como central
que aquilo que vemos é real
Não é só representação
é algo com mais exactidão
do que a representação
Estamos a falar da realidade
Estamos a falar da humanidade
Estamos a falar de um plano de viabilidade
para sermos ESMAGADOS pela absoluta totalidade
e pela profundamente credível tridimensionalidade
TRIDIMENSIONALIDADE
de todas as coisas para as quais Anne tem capacidade
TODAS AS COISAS PARA AS QUAIS ANNE TEM CAPACIDADE
O que é Hécula para ele ou ele para Hécuba?
Uma mega-estrela
UMA MEGA-ESTRELA

A câmara ama-te.
A câmara ama-te.
A câmara ama-te.

Precisamos de fantasiar.
Precisamos de improvisar.
Precisamos de sintetizar.
Precisamos de publicitar que
Nós somos os bons rapazes.
Nós somos os bons rapazes.

Precisamos de escolher
O argumento mais sexy
Não é só significado e significante
é algo muito mais excitante
do que significado e significante
Estamos a falar da actualidade
Estamos a falar da contemporaneidade
Estamos a falar da vontade
de sermos ESMAGADOS pela absoluta quantidade
SIM PELA ABSOLUTA QUANTIDADE
de todas as coisas para as quais Anne tem capacidade
TODAS AS COISAS PARA AS QUAIS ANNE TEM CAPACIDADE

O que é Hébuca para ela ou ela para Hécuba?
Uma mega-estrela.
(Uma mega-estrela? Porra para ela)

A câmara ama-te.
A câmara ama-te.
A câmara a câmara
a câmara a câmara
a câmara a câmara
A CÂMARA AMA-TE

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Serviço Público de Televisão.



a funcionar.


Cristovão Colombo
OLIVEIRA (2007)





Levantado do Chão

"pessimista pela razão, optimista pela vontade".