terça-feira, 25 de outubro de 2005

''Vamos no abraçar."


Delirium, Neil Gaiman, Sandman

Elogio da Loucura
ERASMO DE ROTERDÃO- 1511

No entanto, antes, estivestes sentados, tristes e
inquietos, como se há pouco tivésseis saído da caverna de Trofônio. Com efeito, como
no instante em que surge no céu a brilhante figura do sol, ou como quando, após um rígido
inverno, retorna a primavera com suas doces aragens e vemos todas as coisas tomarem logo
um novo aspecto, matizando-se de novas cores, contribuindo tudo para de certo modo
rejuvenecer a natureza, assim também, logo que me vistes, transformastes inteiramente as
vossas fisionomias. Bastou, pois, a minha simples presença para eu obter o que valentes
oradores mal teriam podido conseguir com um longo e longamente meditado discurso:
expulsar a tristeza de vossa alma.




Santo Deus! Que é, afinal, a vida humana? Como é miserável,
como é sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos males está exposta a
infância! Como sua a juventude! Como é grave a velhice! Como é dura a necessidade da
morte! Percorramos, ainda uma vez, esse deplorável caminho. Que horrível e variada
multiplicidade de males! Quantos desastres, quantos incômodos se encontram na vida!
Enfim não há prazer que não tenha o amargor de muito fel. Quem poderia descrever a
infinita série de males que o homem causa ao homem, como sejam a pobreza, a prisão, a
infâmia, a desonra, os tormentos, a inveja, as traições, as injúrias, os conflitos, as fraudes,
etc.? Eu não saberia dizer-vos que delito teria o homem cometido para merecer tão grande
quantidade de males, nem que deus furioso o teria constrangido a nascer em tão horrível
vale de misérias. Assim, pois, quem quer que examine a fundo a miserabilíssima condição
do gênero humano, não poderá, decerto, deixar de aprovar o exemplo das virgens de Mileto.




LUXÚRIA : Meu abismo é mais profundo! Mármores inspiraram amores obscenos. Gente é precipitada em encontros apavorantes, com algemas que amaldiçoa. De onde provém o feitiço das cortesãs, a extravagância dos sonhos, a imensidade de minha tristeza?

MORTE : Minha ironia ultrapassa todas as outras! Há convulsões de prazer nos funerais dos reis, no extermínio de um povo, e a guerra é feita entre músicas, penachos, bandeiras, arreios dourados, uma ostentação de cerimonial para me prestas mais homenagens.

LUXÚRIA : Minha cólera se assemelha à tua. Uivo, mordo. Tenho suores de agonizante e aspectos de cadáver.

MORTE : Sou eu que te dou seriedade. Vamos no abraçar!

A Morte escarnece, a Luxúria ruge. Entrelaçadas pela cintura, cantam juntas:

— Apresso a dissolução da matéria!
— Facilito a dispersão dos germes!
— Destróis, para que eu renove!
— Crias, para que eu destrua!
— Ativa o meu poderio!
— Fecunda a minha podridão!

E a voz delas, cujos ecos se multiplicando enchem o horizonte, se torna tão forte que Antão cai para trás.
E a voz delas, cujos ecos se multiplicando enchem o horizonte, se torna tão forte que Antão cai para trás.
Uma sacudidela, de vez em quando, lhe faz entreabrir os olhos, e nota, no meio das trevas, uma espécie de monstro à sua frente.
É uma caveira coroada de rosas que paira sobre um tronco de mulher de uma brancura nacarada. Arrasta uma mortalha estrelada de pontos dourados formando uma espécie de cauda; e todo o corpo ondula, como um verme gigantesco que se mantivesse de pé.

A visão se atenua, desaparece."

Gustave Flaubert, As Tentações de Santo Antão, pp 150-155, ed. Iluminuras.


.O Navio dos Loucos, Bosch.




.Pierrot le Fou, Godard, 1965

domingo, 23 de outubro de 2005

Stella Johnson








sábado, 22 de outubro de 2005

STEREODOX - Long ago...


Hedwig and the Angry Inch, John Cameron Mitchell, 2001


...and oh so far away
I fell in love with you,
before the second show.
Your guitar, it sounds so
sweet and clear
But you're not really here
it's just the radio.




SHE WANTS REVENGE: THESE THINGS



NO AGE: ERASER



THE CARPENTERS: SUPERSTAR


SONIC YOUTH: SUPERSTAR

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Peter Granser













Cleópatra.

Cléopâtre

par Louis SKORECKI



Ala bourse des films, le moins qu'on puisse dire, c'est que la valeur de Cléopâtre est fluctuante. Un jour navet, le lendemain chef-d'oeuvre, le surlendemain film surestimé, on ne s'y retrouve pas. Pourquoi faudrait-il s'y retrouver ? demande David. Le cinéma n'est-il pas l'endroit où se perdre, un lieu de débauche et de perdition par excellence ? Je ne sais quoi lui répondre. Je n'ai jamais joué sur les films. J'ai misé sur les cinéastes, c'est vrai, mais à un moment où être cinéaste n'allait pas de soi, à une période pas si lointaine, disons il y a quarante ans, où il n'y avait que des régisseurs. On pariait sur de parfaits inconnus, qui n'avaient même pas le statut de metteur en scène. Même les producteurs, même les stylistes, même les stylistes producteurs (Hawks, Hitchcock, DeMille) n'avaient pas le statut de cinéaste. Ne parlons pas d'auteur, le mot n'existait pas, le concept encore moins. C'était l'époque heureuse où le cinéma n'avait pas de statut, encore moins de statues.

Joseph Leo Mankiewicz, par exemple, est le petit frère d'un grand scénariste, Herman J. Mankiewicz (1897-1957), ami de Ben Hecht et de William Randolph Hearst, double casquette idéale pour devenir coscénariste de Citizen Kane. Joseph L. Mankiewicz (1909-1993) sera lui aussi scénariste dès 1930, avant de passer régisseur en 1946 avec Dragonwyck, son premier chef-d'oeuvre. Là encore, chef-d'oeuvre est un mot anachronique. Ce sont des dialogues enchantés, chantés à bout de bras par Gene Tierney. David me coupe la parole. Il est scénariste ou cinéaste ? me demande-t-il, un peu énervé. Ça dépend de toi, je lui dis. De moi ? Mais oui. Si les paroles valent les images, tu en feras un cinéaste. Sinon... Sinon, quoi ?, demande David. Sinon, tu regarderas Cléopâtre les yeux fermés, ce qui n'est pas la pire façon de voir un film. Tu y es ? Oui, répond David, ils chantent bien. Voilà, petit, tu as compris.

Marc Yankus










STEREODOX - Asas

Brewster McCloud, Robert Altman, 1970


MADAME BUTTERFLY: PUCCINI


BUTTERFLY'S WING: MERCURY REV

Time is now.



Kids, Larry Clark, 1995


So many adventures couldnt happen today
So many songs we forgot to play
So many dreams are swinging out of the blue
We let them come true

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

STEREODOX - Let's go


TURNING JAPANESE!
THE VAPORS

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Estou a escrever-te.



LIVRO DE CABECEIRA
Peter Greenaway (1994)



CINCO MULHERES EM TORNO DE UTAMARO
Mizoguchi (1946)

domingo, 2 de outubro de 2005

QUEM É O HOMEM ERRADO ?


THE WRONG MAN / 1957

Alfred Hitchcock




POR
 João Bénard da Costa




“It doesn’ t matter where I am. Or where anybody is.

It’ s fine for you. You can go now”



(do diálogo final do filme, últimas palavras de Rose)



The Wrong Man introduz, a vários títulos, um corte na obra de Hitchcock dos fifties. Após uma dimensão espectacular (e crescentemente onírica) iniciada em Dial M For Murder e continuada em Rear Window, To Catch a Thief, The Trouble With Harry, The Man Who Knew Too Much, recusa-se essa dimensão e assume-se um pesadelo longe de qualquer espectacularidade. Hitch regressa ao preto e branco (pela penúltima vez na sua obra), abandona os estúdios ou os belos décors naturais (Côte d’  Azur, Vermont, Marrocos, Albert Hall) e, num desvio à sua habitual forma de ficção (aos seus códigos) afirma basear-se num facto verídico, sublinhando aspectos documentais.



Por outro lado, renova inteiramente o seu cast de intérpretes: todos os actores se estreiam em filmes de Hitchcock e, à excepção de Vera Miles (de quem tanto gostou) não voltariam a ser dirigidos por ele. Simultaneamente, reforça a sua presença como autor: pela primeira e única vez na sua obra, surge-nos ainda antes do genérico para anunciar “This is Alfred Hitchcock speaking” e a preparar o espectador para “um filme diferente” (este, habituado às suas brincalhonas aparições, é imediatamente “apanhado” pela surpresa de tão graves palavras e pela obscuridade que o rodeia, ocultando-lhe o rosto e deixando apenas ver os contornos da sua sombra).



Finalmente, Hitch parece assumir explicitamente os temas que a crítica por esses anos descobria implicitamente na sua obra: a relatividade da culpa, a ideia, traduzida pelo título português, do “falso culpado”. À época, os homens dos “Cahiers du Cinéma” que haviam iniciado o levantamento de tais temas (perante generalizada incredibilidade) exultaram e Chabrol fazia publicar na revista o famoso anúncio em que agradecia a Alfred Hitchcock ter filmado The Wrong Man para provar, à face do mundo, que a revista da nouvelle vague tinha razão. O que se virou contra ela e contra Hitch: este perdera a sua “inocência” e filmava, agora, de acordo com ideias que outros lhe tinham impingido.



Qualquer espectador atento pode verificar o total descabimento quer do júbilo dos “Cahiers” quer do ataque dos seus detractores. Sobre a relatividade da culpa, The Wrong Man não é mais explícito do que os grandes marcos da obra anterior, bastando pensar em Shadow of a Doubt, Strangers on a Train ou I Confess. Até talvez o seja menos. Só que o tom do cineasta se tornou crescentemente sombrio e o que se pode dizer, sem entorse à verdade, é que The Wrong Man é um dos seus filmes mais terríveis e desesperados.



Muito se tem falado, a propósito deste filme, de universo kafkiano. A aproximação é bastante evidente, na absurda perseguição que se abate sobre Henry Fonda e na terrível desmontagem dos mecanismos policiais (talvez nunca um filme seu tenha ilustrado tão cabalmente o célebre terror de Hitchcock pela polícia). Vezes sem conta o autor se referiu à situação vivida pelo protagonista como a mais terrível que se lhe podia deparar: uma pessoa que volta para casa calmamente, é detida, presa, humilhada, sem poder provar a sua inocência e marcada com todos os estigmas da culpabilidade. The Wrong Man é, nesse sentido, o pesadelo por excelência de Hitchcock, a descida ao fundo dos seus próprios pavores.



Mas o mais importante deste admirável filme não está apenas nisso, mas nas diversas reacções de Christopher Emmanuel Balestrero e da sua mulher. Balestrero parece sempre viver um pesadelo de que, acredita, acordará. A normalidade do personagem (típica num certo e não menos terrível sentido do american average man, com os seus problemas financeiros, o seu gosto pelas apostas nas corridas de cavalos, o seu estatuto familiar) não é profundamente afectada por tudo quanto lhe acontece. Luta contra as “adversas circunstâncias” e acredita no “milagre” que a seu tempo virá. “Milagre” que é aliás extremamente ambíguo, porque nenhuma certeza é dada ao espectador de que o novo culpado seja de facto o autor dos roubos por que Fonda foi preso. Vemo-lo, é certo, assaltar um supermercado, mas daí não decorre qualquer evidência sobre o seu passado. Pelo contrário: a frase que pronuncia quando é preso é exactamente a mesma que Fonda disse no início do filme; o seu reconhecimento pelas testemunhas é idêntico ao reconhecimento de Fonda. E este não vacila perante essa repetição do pesadelo, antes junta a sua voz à dos polícias, acusando o seu “substituto”.



Pelo contrário, a ordem de perturbação de Vera Miles é radicalmente abissal. Ainda nada tinha acontecido (primeira sequência do casal) e já a vemos, num plano fugaz, duvidar do que lhe diz o marido. Este fala-lhe da sorte que têm (amam-se, têm dois filhos, há um emprego, etc...) e Vera Miles olha-o como que em dúvida radical de que “isso” seja felicidade. O dia da prisão de Fonda (ainda antes de saber) é, para ela, o de um pressentimento contínuo (“I knew it was something like that” diz ela quando sabe). E, a partir daí, a fissura intervém entre o casal.



Quando sabem da morte das duas testemunhas, Fonda mostra desapontamento, Vera Miles inicia o riso histérico que a separará definitivamente da “normalidade” de Fonda. Onde este vê só “um mal” Vera Miles vê o Mal, e a sua inelutabilidade. Dimensão a que Fonda jamais acede: o comportamento dela na conversa com o advogado é visto pelo olhar deste, enquanto Fonda parece não lhe dar muita atenção. E quando a dá (lapidar sequência da imagem do espelho partido e da agressão) é ainda para a ver como uma nova provação que sobre ele se abateu, nunca para perceber como ela dirá no final que “já não há nada nem ninguém que a possa ajudar”. Fonda jamais perde o seu lugar, a sua identidade; para Vera Miles, pelo contrário, todo o sentido se quebrou e se rompeu. Fonda move-se no universo moral. Vera Miles na dimensão metafísica. Por isso a ele tudo lhe pode acontecer (da prisão ao milagre) sem colidir com o seu equilíbrio; por isso, a Vera Miles de nenhum conforto serve saber que Fonda está livre ou que um outro “culpado” está preso.



A legenda final aniquila esta dupla dimensão? A quem o diga se objecta que é só uma legenda e que, por alguma razão, Hitchcock não filmou a cura de Vera Miles.



Mas também nada autoriza a supôr que Hitchcock privilegie a instância de Vera Miles sobre a de Fonda. Este é o homem de pé, revisitação da parábola de Job, que nada ou ninguém pode arrancar da sua crença primacial e para o qual o sobrenatural (mesmo ao plano do milagre) só vem em prolongamento da obra (o Deus que nos guarda e defende). Vera Miles é o ser do desespero, aquele que um dia olhou o Mal e para quem tudo o resto, depois disso, jamais se volve idêntico. Ela é a habitada, Fonda o habitante. Quem pode julgar sobre tais moradas? Quem é o wrong man?

sábado, 1 de outubro de 2005

(once upon a time there was humanity.)

patriotismo, lusitanismo, nacionalismo, portugalidade - tudo alérgenos do meu espírito.