domingo, 2 de outubro de 2005

QUEM É O HOMEM ERRADO ?


THE WRONG MAN / 1957

Alfred Hitchcock




POR
 João Bénard da Costa




“It doesn’ t matter where I am. Or where anybody is.

It’ s fine for you. You can go now”



(do diálogo final do filme, últimas palavras de Rose)



The Wrong Man introduz, a vários títulos, um corte na obra de Hitchcock dos fifties. Após uma dimensão espectacular (e crescentemente onírica) iniciada em Dial M For Murder e continuada em Rear Window, To Catch a Thief, The Trouble With Harry, The Man Who Knew Too Much, recusa-se essa dimensão e assume-se um pesadelo longe de qualquer espectacularidade. Hitch regressa ao preto e branco (pela penúltima vez na sua obra), abandona os estúdios ou os belos décors naturais (Côte d’  Azur, Vermont, Marrocos, Albert Hall) e, num desvio à sua habitual forma de ficção (aos seus códigos) afirma basear-se num facto verídico, sublinhando aspectos documentais.



Por outro lado, renova inteiramente o seu cast de intérpretes: todos os actores se estreiam em filmes de Hitchcock e, à excepção de Vera Miles (de quem tanto gostou) não voltariam a ser dirigidos por ele. Simultaneamente, reforça a sua presença como autor: pela primeira e única vez na sua obra, surge-nos ainda antes do genérico para anunciar “This is Alfred Hitchcock speaking” e a preparar o espectador para “um filme diferente” (este, habituado às suas brincalhonas aparições, é imediatamente “apanhado” pela surpresa de tão graves palavras e pela obscuridade que o rodeia, ocultando-lhe o rosto e deixando apenas ver os contornos da sua sombra).



Finalmente, Hitch parece assumir explicitamente os temas que a crítica por esses anos descobria implicitamente na sua obra: a relatividade da culpa, a ideia, traduzida pelo título português, do “falso culpado”. À época, os homens dos “Cahiers du Cinéma” que haviam iniciado o levantamento de tais temas (perante generalizada incredibilidade) exultaram e Chabrol fazia publicar na revista o famoso anúncio em que agradecia a Alfred Hitchcock ter filmado The Wrong Man para provar, à face do mundo, que a revista da nouvelle vague tinha razão. O que se virou contra ela e contra Hitch: este perdera a sua “inocência” e filmava, agora, de acordo com ideias que outros lhe tinham impingido.



Qualquer espectador atento pode verificar o total descabimento quer do júbilo dos “Cahiers” quer do ataque dos seus detractores. Sobre a relatividade da culpa, The Wrong Man não é mais explícito do que os grandes marcos da obra anterior, bastando pensar em Shadow of a Doubt, Strangers on a Train ou I Confess. Até talvez o seja menos. Só que o tom do cineasta se tornou crescentemente sombrio e o que se pode dizer, sem entorse à verdade, é que The Wrong Man é um dos seus filmes mais terríveis e desesperados.



Muito se tem falado, a propósito deste filme, de universo kafkiano. A aproximação é bastante evidente, na absurda perseguição que se abate sobre Henry Fonda e na terrível desmontagem dos mecanismos policiais (talvez nunca um filme seu tenha ilustrado tão cabalmente o célebre terror de Hitchcock pela polícia). Vezes sem conta o autor se referiu à situação vivida pelo protagonista como a mais terrível que se lhe podia deparar: uma pessoa que volta para casa calmamente, é detida, presa, humilhada, sem poder provar a sua inocência e marcada com todos os estigmas da culpabilidade. The Wrong Man é, nesse sentido, o pesadelo por excelência de Hitchcock, a descida ao fundo dos seus próprios pavores.



Mas o mais importante deste admirável filme não está apenas nisso, mas nas diversas reacções de Christopher Emmanuel Balestrero e da sua mulher. Balestrero parece sempre viver um pesadelo de que, acredita, acordará. A normalidade do personagem (típica num certo e não menos terrível sentido do american average man, com os seus problemas financeiros, o seu gosto pelas apostas nas corridas de cavalos, o seu estatuto familiar) não é profundamente afectada por tudo quanto lhe acontece. Luta contra as “adversas circunstâncias” e acredita no “milagre” que a seu tempo virá. “Milagre” que é aliás extremamente ambíguo, porque nenhuma certeza é dada ao espectador de que o novo culpado seja de facto o autor dos roubos por que Fonda foi preso. Vemo-lo, é certo, assaltar um supermercado, mas daí não decorre qualquer evidência sobre o seu passado. Pelo contrário: a frase que pronuncia quando é preso é exactamente a mesma que Fonda disse no início do filme; o seu reconhecimento pelas testemunhas é idêntico ao reconhecimento de Fonda. E este não vacila perante essa repetição do pesadelo, antes junta a sua voz à dos polícias, acusando o seu “substituto”.



Pelo contrário, a ordem de perturbação de Vera Miles é radicalmente abissal. Ainda nada tinha acontecido (primeira sequência do casal) e já a vemos, num plano fugaz, duvidar do que lhe diz o marido. Este fala-lhe da sorte que têm (amam-se, têm dois filhos, há um emprego, etc...) e Vera Miles olha-o como que em dúvida radical de que “isso” seja felicidade. O dia da prisão de Fonda (ainda antes de saber) é, para ela, o de um pressentimento contínuo (“I knew it was something like that” diz ela quando sabe). E, a partir daí, a fissura intervém entre o casal.



Quando sabem da morte das duas testemunhas, Fonda mostra desapontamento, Vera Miles inicia o riso histérico que a separará definitivamente da “normalidade” de Fonda. Onde este vê só “um mal” Vera Miles vê o Mal, e a sua inelutabilidade. Dimensão a que Fonda jamais acede: o comportamento dela na conversa com o advogado é visto pelo olhar deste, enquanto Fonda parece não lhe dar muita atenção. E quando a dá (lapidar sequência da imagem do espelho partido e da agressão) é ainda para a ver como uma nova provação que sobre ele se abateu, nunca para perceber como ela dirá no final que “já não há nada nem ninguém que a possa ajudar”. Fonda jamais perde o seu lugar, a sua identidade; para Vera Miles, pelo contrário, todo o sentido se quebrou e se rompeu. Fonda move-se no universo moral. Vera Miles na dimensão metafísica. Por isso a ele tudo lhe pode acontecer (da prisão ao milagre) sem colidir com o seu equilíbrio; por isso, a Vera Miles de nenhum conforto serve saber que Fonda está livre ou que um outro “culpado” está preso.



A legenda final aniquila esta dupla dimensão? A quem o diga se objecta que é só uma legenda e que, por alguma razão, Hitchcock não filmou a cura de Vera Miles.



Mas também nada autoriza a supôr que Hitchcock privilegie a instância de Vera Miles sobre a de Fonda. Este é o homem de pé, revisitação da parábola de Job, que nada ou ninguém pode arrancar da sua crença primacial e para o qual o sobrenatural (mesmo ao plano do milagre) só vem em prolongamento da obra (o Deus que nos guarda e defende). Vera Miles é o ser do desespero, aquele que um dia olhou o Mal e para quem tudo o resto, depois disso, jamais se volve idêntico. Ela é a habitada, Fonda o habitante. Quem pode julgar sobre tais moradas? Quem é o wrong man?

sábado, 1 de outubro de 2005

(once upon a time there was humanity.)

patriotismo, lusitanismo, nacionalismo, portugalidade - tudo alérgenos do meu espírito.


quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Meanwhile

Dixon Steele: I was born when she kissed me. I died when she left me. I lived a few weeks while she loved me.

In A Lonely Place, 1950, Nicholas Ray

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Catherine Opie





segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Henri Cartier-Bresson






Das profundezas da América...


Walker Evans










sexta-feira, 16 de setembro de 2005

STEREODOX - Guiado

My Own Private Idaho, Gus Van Sant, 1991

WEED KING: GUIDED BY VOICES

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

STEREODOX - Repeat-hit




DAF -
Der Raeuber und der Prinz


BOB DYLAN -
Lay Lady Lay



TONY BENNETT
- Boulevard of Broken Dreams



JACQUES BREL
- Amsterdam



SHADOWS OF KNIGHT
- Gloria




NICK DRAKE
- One of these things first





BIAROOZ
- America




quarta-feira, 14 de setembro de 2005

STEREODOX: Ravens fly across the moon


KINGDOM OF DOOM
THE GOOD, THE BAD AND THE QUEEN





sábado, 10 de setembro de 2005

STEREODOX - Hit

Jean Dubuffet, Affluence (detail), 1961

ART BRUT- DIRECT HIT

the Skywalkers: Judgement Day

Carl Jung

http://youtu.be/zUiasCT-1dA

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

A beleza é uma força e uma vulnerabilidade.

She has the youth, the freshness, and the naiveté of a Tess, and none of the practiced mannerisms of an actress engaged to "interpret" the role.
ROGER EBERT

Tess
POLANSKI (1979)