SOBRE O FASCISMO
"O primeiro traço do protofascismo é o culto à tradição. O tradicionalismo é mais antigo do que o fascismo, e era típico do pensamento católico contra-revolucionário após a Revolução Francesa; mas nascera muito antes, no final da era helenística, como reacção ao racionalismo grego clássico.
Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diferentes (todas admitidas indulgentemente no Panteão romano) começaram a sonhar com uma revelação feita na aurora da história humana. Essa revelação permanecera por muito tempo oculta sob o véu de línguas esquecidas; estava contida nos hieroglifos egípcios, nas runas celtas, nos pergaminhos de religiões asiáticas ainda desconhecidas.
Esta nova cultura tinha que ser sincrética. Sincretismo não é apenas, como diz o dicionário, "a combinação de diferentes formas de crença ou prática"; uma tal combinação tem que tolerar contradições. Cada uma das mensagens originais contém uma centelha de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, de facto estarão apenas aludindo, alegoricamente, à mesma verdade primeva. Em consequência, não pode haver progresso do saber. A verdade já foi pronunciada de uma vez por todas, e só podemos seguir interpretando sua mensagem obscura.
Basta olhar para os patronos de qualquer movimento fascista para encontrar os grandes pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincréticos e ocultos. (...) Basta ver as estantes que as livrarias americanas reservam para a "new age" para encontrar até mesmo Santo Agostinho, que, pelo que sei, não era fascista. Mas o próprio facto de pôr no mesmo saco Santo Agostinho e Stonehenge já é sintonia de protofascismo.
O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto fascistas quanto nazistas cultuavam a tecnologia, ao passo que pensadores tradicionalistas normalmente a rejeitam enquanto negação de valores espirituais tradicionais.
Entretanto, apesar de orgulhoso de suas conquistas industriais, o elogio nazista à modernidade era apenas a superfície de uma ideologia baseada em Sangue e Solo (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era disfarçada de refutação ao modo de vida capitalista, mas destinava-se principalmente à rejeição do Espírito de 1789 (e de 1776, é claro). O Iluminismo, a Era da Razão, é visto como o começo da depravação moderna. Nesse sentido, o protofascismo pode ser definido como irracionalista.
O irracionalismo também depende do culto à acção pela acção. Sendo a acção bela em si mesma, ela deve ser implementada antes de ou sem qualquer reflexão prévia. Assim sendo, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Os intelectuais fascistas oficiais estão ocupados sobretudo em acusar a cultura moderna e a "intelligentsia" liberal pela perda dos valores tradicionais.
Nenhum sincretista é capaz de suportar a crítica. O espírito crítico faz distinções, e ser capaz de fazê-lo é signo de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica elogia o desacordo como maneira de aprimorar o conhecimento.
Para o protofascismo, desacordo é traição."