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segunda-feira, 20 de abril de 2009

'' se queres vencer tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas''

"Quando se vive a cultivar esperanças impossíveis, já se é um perdedor (…). Os perdedores, como os autodidactas, têm sempre conhecimentos mais vastos do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quantas mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deveriam."


Umberto Eco, Número zero

sábado, 20 de setembro de 2008

UMBERTO ECO

SOBRE O FASCISMO



"O primeiro traço do protofascismo é o culto à tradição. O tradicionalismo é mais antigo do que o fascismo, e era típico do pensamento católico contra-revolucionário após a Revolução Francesa; mas nascera muito antes, no final da era helenística, como reacção ao racionalismo grego clássico.
Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diferentes (todas admitidas indulgentemente no Panteão romano) começaram a sonhar com uma revelação feita na aurora da história humana. Essa revelação permanecera por muito tempo oculta sob o véu de línguas esquecidas; estava contida nos hieroglifos egípcios, nas runas celtas, nos pergaminhos de religiões asiáticas ainda desconhecidas.
Esta nova cultura tinha que ser sincrética. Sincretismo não é apenas, como diz o dicionário, "a combinação de diferentes formas de crença ou prática"; uma tal combinação tem que tolerar contradições. Cada uma das mensagens originais contém uma centelha de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, de facto estarão apenas aludindo, alegoricamente, à mesma verdade primeva. Em consequência, não pode haver progresso do saber. A verdade já foi pronunciada de uma vez por todas, e só podemos seguir interpretando sua mensagem obscura.
Basta olhar para os patronos de qualquer movimento fascista para encontrar os grandes pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincréticos e ocultos. (...) Basta ver as estantes que as livrarias americanas reservam para a "new age" para encontrar até mesmo Santo Agostinho, que, pelo que sei, não era fascista. Mas o próprio facto de pôr no mesmo saco Santo Agostinho e Stonehenge já é sintonia de protofascismo.
O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto fascistas quanto nazistas cultuavam a tecnologia, ao passo que pensadores tradicionalistas normalmente a rejeitam enquanto negação de valores espirituais tradicionais.
Entretanto, apesar de orgulhoso de suas conquistas industriais, o elogio nazista à modernidade era apenas a superfície de uma ideologia baseada em Sangue e Solo (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era disfarçada de refutação ao modo de vida capitalista, mas destinava-se principalmente à rejeição do Espírito de 1789 (e de 1776, é claro). O Iluminismo, a Era da Razão, é visto como o começo da depravação moderna. Nesse sentido, o protofascismo pode ser definido como irracionalista.
O irracionalismo também depende do culto à acção pela acção. Sendo a acção bela em si mesma, ela deve ser implementada antes de ou sem qualquer reflexão prévia. Assim sendo, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Os intelectuais fascistas oficiais estão ocupados sobretudo em acusar a cultura moderna e a "intelligentsia" liberal pela perda dos valores tradicionais.
Nenhum sincretista é capaz de suportar a crítica. O espírito crítico faz distinções, e ser capaz de fazê-lo é signo de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica elogia o desacordo como maneira de aprimorar o conhecimento.
Para o protofascismo, desacordo é traição."

quinta-feira, 6 de janeiro de 2005

Les Amants Réguliers (2005)


La Frontière de L'Aube

E / OU

L'Amour Fou


A beleza convulsiva terá de ser erótico-velada, explodente-fixa, mágico-circunstancial, ou não será beleza.
André Breton, em "L'Amour Fou"

É belo aquilo que se fosse nosso nos faria felizes, mas continua a sê-lo, apesar de pertencer a qualquer outro.
Umberto Eco, in História da Beleza







I only own my mind

Oh the innocence lost at one time.
Significant behind the eyes, there’s no need to hide...
We're safe tonight.
And the feelings that get left behind...
Oh the innocence broken with lies.
Significance between the lines, we may need to hide.
And the meanings that get left behind...
Oh the innocence lost at one time.
We're all different behind the eyes.
I am mine, Pearl Jam

Senti que estava na altura de filmar o meu grupo de amigos, tendo em mente a ideia de que um dia seremos velhos e feios como acontece a toda a gente- à excepção de algumas pessoas, nomeadamente mulheres, que são bastante poupadas pelo tempo. Os meus amigos detestam ouvir-me dizer isto, mas conhecemo-nos quando tínhamos 16 anos e acreditávamos que íamos triunfar onde os outros tinham fracassado. Um dia olhei para eles e dei-me conta que, no fundo, também estamos perdidos, o falhanço também pende sobre nós. E disse a mim mesmo que era preciso filmar esse estado.
Louis Garrel, sobre a sua curta metragem Mes copains, ípsilon, 21 Nov. 08


Boys do severo, anónimos, encadeados e brilhantes intérpretes da revista espectacular que, sem esperança de que este estado de coisas mude, durante uma vida inteira irá ocupar o teatro mental, sempre, a meus olhos, evoluiram misteriosamente esses teóricos seres, que eu defino como sendo aqueles que guardam as chaves: são eles que têm a chave das situações, querendo eu com isso dizer que detêm o segredo das atitudes mais significativas que possa vir a tomar perante este ou aquele acontecimento mais raro que porventura me venha a marcar. É costume dessas personagens surgirem-me vestidas de escuro - talvez de casaco; o seu rosto escapa-se-me; julgo que serão umas sete ou nove- e, sentadas num banco, lado a lado, é também costume seu dialogarem entre si, de cabeça erguida.
André Breton em "L'Amour fou"