Depois lanço-me à estrada, na taberna; converso com as pessoas que passam por mim, peço-lhes novidades dos seus países; presto atenção a várias coisas, e reparo nos gostos e nas fantasias diversas dos homens. Entretanto chegou já a hora de almoço, e tomo com a minha família a refeição que esta aldeia e o seu minúsculo património tem à disposição. Depois de comer volto à taberna: ali está o estalajadeiro, como é costume, um talhante, um moleiro, dois do das fornalhas. Ponho-me na galhofada com eles e jogo à carica, ao trich-trach, e vai-se a ver nascem daí mil histórias e jorradas infinitas de injúrias; e apesar do mais das vezes não jogarmos por mais que um centavo não é por isso que deixam de nos ouvir gritar até San Casciano. Assim, mexido e remexido por entre estes piolhos, limpo todo o mofo do cérebro, e afogo as infelicidades que a minha má-sorte me trouxe, e agradeço-lhe ainda o ter-me atropelado no meu percurso, como se quisesse ver se eu teria vergonha de mim mesmo. Quando chega a noite, volto para casa e entro no meu escritório; na entrada dispo a roupa do dia-a-dia coberta de lama e de lodo, e visto panos de rei e de cúria; tendo-me então vestido condignamente, entro nas cortes antigas dos antigos homens, onde eles me recebem amorosamente, e me sirvo daquele meu único alimento, para o qual nasci; onde não me envergonha falar com eles e interrogá-los sobre as razões das suas acções; e eles pela sua humanidá respondem; e durante quatro horas a fio não me aborreço, esqueço todas as preocupações, não temo a pobreza, não me desalenta a morte: entrego-me a eles completamente.
Maquiavel. Carta a Francesco Vettori de 10 de Dezembro de 1513
Manoel de Oliveira, O Quinto Império, 2005
Interior da Galeria Linder (Jan Brueghel el Viejo)










