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domingo, 1 de março de 2009
terça-feira, 25 de outubro de 2005
''Vamos no abraçar."

Delirium, Neil Gaiman, Sandman
Elogio da Loucura
ERASMO DE ROTERDÃO- 1511
No entanto, antes, estivestes sentados, tristes e
inquietos, como se há pouco tivésseis saído da caverna de Trofônio. Com efeito, como
no instante em que surge no céu a brilhante figura do sol, ou como quando, após um rígido
inverno, retorna a primavera com suas doces aragens e vemos todas as coisas tomarem logo
um novo aspecto, matizando-se de novas cores, contribuindo tudo para de certo modo
rejuvenecer a natureza, assim também, logo que me vistes, transformastes inteiramente as
vossas fisionomias. Bastou, pois, a minha simples presença para eu obter o que valentes
oradores mal teriam podido conseguir com um longo e longamente meditado discurso:
expulsar a tristeza de vossa alma.

Santo Deus! Que é, afinal, a vida humana? Como é miserável,
como é sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos males está exposta a
infância! Como sua a juventude! Como é grave a velhice! Como é dura a necessidade da
morte! Percorramos, ainda uma vez, esse deplorável caminho. Que horrível e variada
multiplicidade de males! Quantos desastres, quantos incômodos se encontram na vida!
Enfim não há prazer que não tenha o amargor de muito fel. Quem poderia descrever a
infinita série de males que o homem causa ao homem, como sejam a pobreza, a prisão, a
infâmia, a desonra, os tormentos, a inveja, as traições, as injúrias, os conflitos, as fraudes,
etc.? Eu não saberia dizer-vos que delito teria o homem cometido para merecer tão grande
quantidade de males, nem que deus furioso o teria constrangido a nascer em tão horrível
vale de misérias. Assim, pois, quem quer que examine a fundo a miserabilíssima condição
do gênero humano, não poderá, decerto, deixar de aprovar o exemplo das virgens de Mileto.
LUXÚRIA : Meu abismo é mais profundo! Mármores inspiraram amores obscenos. Gente é precipitada em encontros apavorantes, com algemas que amaldiçoa. De onde provém o feitiço das cortesãs, a extravagância dos sonhos, a imensidade de minha tristeza?
MORTE : Minha ironia ultrapassa todas as outras! Há convulsões de prazer nos funerais dos reis, no extermínio de um povo, e a guerra é feita entre músicas, penachos, bandeiras, arreios dourados, uma ostentação de cerimonial para me prestas mais homenagens.
LUXÚRIA : Minha cólera se assemelha à tua. Uivo, mordo. Tenho suores de agonizante e aspectos de cadáver.
MORTE : Sou eu que te dou seriedade. Vamos no abraçar!
A Morte escarnece, a Luxúria ruge. Entrelaçadas pela cintura, cantam juntas:
— Apresso a dissolução da matéria!
— Facilito a dispersão dos germes!
— Destróis, para que eu renove!
— Crias, para que eu destrua!
— Ativa o meu poderio!
— Fecunda a minha podridão!
E a voz delas, cujos ecos se multiplicando enchem o horizonte, se torna tão forte que Antão cai para trás.
E a voz delas, cujos ecos se multiplicando enchem o horizonte, se torna tão forte que Antão cai para trás.
Uma sacudidela, de vez em quando, lhe faz entreabrir os olhos, e nota, no meio das trevas, uma espécie de monstro à sua frente.
É uma caveira coroada de rosas que paira sobre um tronco de mulher de uma brancura nacarada. Arrasta uma mortalha estrelada de pontos dourados formando uma espécie de cauda; e todo o corpo ondula, como um verme gigantesco que se mantivesse de pé.
A visão se atenua, desaparece."
Gustave Flaubert, As Tentações de Santo Antão, pp 150-155, ed. Iluminuras.

.O Navio dos Loucos, Bosch.


.Pierrot le Fou, Godard, 1965
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