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quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Days of Glory (Jacques Tourneur, 1944)



DAYS OF GLORY / 1944
 Jacques Tourneur




Independentemente da sua factura, Days of Glory tem duas peculiaridades: como é especificado no genérico, todos os actores sem excepção fazem aqui a sua estreia no cinema, inclusive Gregrory Peck, que já tinha experiência de palco; e é um daqueles raros filmes americanos de guerra abertamente pró-soviéticos. Fala-se até em “camarada Estaline”, com a maior naturalidade e embora a palavra “comunista” nunca seja pronunciada, fala-se na “República Socialista Soviética” e todos se tratam por “camarada”. No período final da guerra, depois da derrota nazi em Estalinegrado (o filme ficou pronto em Abril de 1944, um ano antes da capitulação do Eixo) a aliança com a URSS era suficientemente importante para que a máquina de propaganda hoillywoodiana apresentasse o país de modo favorável. Há até um esforço para que os actores falem com uma pronúncia vagamente russa, para associar a ideia de “Rússia” à de “União Soviética”, quando os não-comunistas sempre tentaram dissociá-las.

Mas o filme também é revelador de outra característica dos métodos hollywoodianos, como contou Tourneur na importante entrevista concedida a Simon Mizrahi em 1964 e que temos citado ao longo destas folhas. Ouçamo-lo contar esta variante peculiar do velho princípio de dividir para reinar: “Os três filmes que eu tinha realizado com Val Lewton [Cat People, I Walked With a Zombie e Leopard Man] tinham tido êxito. Os chefes do estúdio tiveram então o seguinte raciocínio: se eles trabalham tão bem em conjunto, hão-de trabalhar ainda melhor separadamente; vamos usar o talento de ambos e cada um fará filmes pelo seu lado” (ou seja, “vamos ganhar o dobro do dinheiro). “Foi então que me confiaram pela primeira vez a realização de um grande filme: Days of Glory. Foi o meu primeiro filme com grande orçamento”. Tourneur gostou particularmente de trabalhar com actores poucos experimentados, para poder “modelá-los como barro”, sobretudo Tamara Toumanova, célebre dançarina clássica, e Gregory Peck, que cinquenta anos depois lembrava-se de instruções de Tourneur para que projectasse menos a voz como no teatro e falasse de modo mais comum (“to stop projecting and to common up my speech”).

Uma das características do trabalho de Tourneur na RKO é inseparável do estilo da companhia, das mais ousadas e inventivas na Hollywood de então (basta lembrar que em 1941 ousara produzir Citizen Kane): os orçamentos reduzidos nunca foram um impecilho para o apuro formal. Os cenários são depurados, nunca atabalhoados, a fotografia é um sofisticado jogo de luzes e sombras, características de que os três filmes de Tourneur produzidos por Val Lewton e citados acima são exemplos patentes. Embora “com grande orçamento”, Days of Glory tem características de produção de série B, cenários reduzidos, alguns exteriores feitos de tela pintada que alternam com cenários naturais, ausência de multidões. Mas são precisamente estas características que fazem as qualidades do filme, razão pela qual Variety definiu-o como “um drama lento e tagarela, com demasiado pouca acção”. Esta crítica só é aceitável para quem pensa que “acção” dramática num filme é sinónimo de tiroteios, correrias e pancadaria. O filme começa na neve, numa magnífica cena “de acção”, em que Tourneur nos reserva tão longamente quanto possível a surpresa de revelar que o atirador que abate os nazis é uma mulher. Na abertura e na conclusão, Days of Glory tem a voz off que caracteriza os filmes de propaganda, o que até certo ponto é, e toda a acção principal decorre entre quatro paredes, como um drama de vontades, de consciências, também nisso bastante “russo” e até mesmo semelhante a alguns filmes soviéticos sobre a “grande guerra patriótica”, semelhança que é sem dúvida alguma mera coincidência. Como bem assinalou Chris Fujiwara no seu livro sobre Tourneur, “os cenários de Mordechai Gorelik, soberbamente pormenorizados, enfatizam a teatralidade hermética do argumento. O cenário do esconderijo subterrâneo permite a Tourneur dar largas ao seu gosto para colocar fontes de luz no interior dos enquadramentos”. Estas sequências de interior, em que são debatidas diversas atitudes em relação à guerra (oportunismo, vontade de destruição, vontade de evasão), alternam de modo clássico com sequências exteriores, que pontuam a acção e equilibram a articulação visual do filme. Mas as sequências exteriores, “de acção” estão longe de sempre significar uma forma de vitória. Também significam derrotas para os guerrilheiros, para os que estão do lado certo e têm princípios morais, embora não se furtem à crueldade e à mesquinharia da guerra. É num magnífico plano geral em meio a paisagens cobertas de neve que Yelena, a mais competente atiradora do grupo é abatida. E é no exterior, numa diminuta praça de estúdio, que é executado o jovem Mitka, o idealista que não se deixa entravar pela prudência. O seu heroísmo convencional e exemplar (“não se pode enforcar um povo”, frase que em 1944, quando povos inteiros eram enforcados, tinha certamente um efeito diferente do que tem hoje) não impede a sua morte. Tourneur resolve de modo magnífico e característico esta sequência, mudando bruscamente de ângulo, para que o enforcamento seja em off, fiel ao seu princípio de que a sugestão do horror é mais forte do que a sua exibição. Mas na lógica de um filme hollywoodiano, as mortes de Yelena e Mitka têm algo de expiatório, menos para a causa russa do que para a formação do par romântico formado por Vladimir e Nina, para a sua consolidação. Nina ensina a Vladimir a voltar a amar a vida, a voltar a construir (ele é engenheiro) ao invés de apenas destruir, e ele ensina-lhe a carregar o seu fuzil, a matar. Um se aproxima da vida e o outro da morte, convergência necessária na lógica do filme e na lógica da guerra, da morte pela vida. Numa perspectiva puramente “autorista”, Chris Fujiwara propõe uma ideia sedutora: “Days of Glory é o inverso de Cat People. Em Cat People, Irene representa um impulso de morte inapropriadamente atirado num país de vida; em Days of Glory, Nina é «uma pessoa de luz e de vida, fora de lugar nesta região da morte». Em Days of Glory, a morte banalizou o impulso de morte e a capacidade de sonhar que Nina manifesta torna-a «estranha». (…) Noutro eco misterioso de Cat People, Yelena é abatida por um atirador alemão emboscado e Nina, no plano seguinte, desperta subitamente, como se protestasse contra o acto de violência que o seu subconsciente desejara”. Days of Glory é, por conseguinte, muito mais do que um banal filme de guerra, género que pode ser sobremaneira monótono. É um drama sobre a pulsão de vida e a pulsão de morte, com toda a capacidade de sugestão que caracteriza o cinema de Jacques Tourneur.

Antonio Rodrigues