sábado, 2 de março de 2019

: Capitalizar o desvio na era da hipernormalização

SIC / 26.2.2019 

Há bocado, estava a lavar a loiça e a pensar na vitória merecida do Conan Osíris no Festival da Canção. Há que assinalar como em resposta à estamina do look lenhador, chegou à cena hipster o look unicórnio (intergénero), de que o Conan é um dos mais altos representantes e é também por isso que a gente o ama. Props pelo projecto de abrir as cabeças cisnormativas --- mas adiante. 

RTP1 / 2.3.2019 

Fashion que é, Conan* também traz consigo uma das mais fetichistas tendências que povoam o contemporâneo: o #branding. Ao Pugrama da Cristina™ levou tá-se-bem embrulhado num panorâmico símbolo da Nike® mas, se Conan deve ter recebido uma muy merecida soma para o fazer, nas redes sociais, a maior parte do peepz #hashtaga o que usa deliberadamente (autênticos billboards voluntários), pelo social e sem pensar muito nisso, enquanto marcas milionárias acrescem aos seus milhões em lucros. Concluo que este revivalismo das marcas que em tudo estampam uns grandes logos, como se fossem outra vez os anos 90, só vem sublinhar a hipernormalização diagnosticada por Adam Curtis https://www.youtube.com/watch?v=-fny99f8amM. Hoje não há quem não saiba que tudo isto é feito na Ásia por criancinhas em idade pré-escolar mas, ainda assim, a aspiração à norma é poderosa e o desejo de normatividade o mais mobilizador (no mundo feito imagem, o problema da Ética é não ser tão imediatamente visível como um logo da Nike). A sociedade de consumo tira bom proveito disso e tudo se dispõe muito simplesmente, agora no plano digital, numa lógica de ser=ter: compra isto e serás fixe>hashtag+selfie no teu instagram para provar que também tens>logo, és fixe. Claro que não és (o campeonato do ser é outro) e surgirá, de imediato, uma nova ideação de consumo para atingir um qualquer outro nível imaginário de fixeza. São, afinal, as nossas frustraçõezinhas existenciais (e a crença de que as vamos curar no #mundo_das_coisas) o que estimula a deslocalização das indústrias ocidentais para países de 3º mundo. Porque, se elas produzem em massa para responder às necessidades da massa, elas comunicam para o indivíduo e é aí, precisamente aí, na indefinição do Eu à procura de se expressar enquanto Eu, que o indivíduo se funde em massas no shopping: em suma, bandos de Eus à procura que o seu exterior diga - em vão - algo sobre o seu interior. É aí, em universal crise existencial, que consumimos como quem agradece às #brands pelas soluções instantâneas que disponibilizam. E, sem alternativa à vista, já aceitámos o erro como norma. Na era da informação, nós já vimos os documentários todos, nós já sabemos desmontar detrás-para-a-frente os vários males do sistema mas, ainda assim, nesta (i)lógica de manada, escolhemos deliberadamente, todos os dias, não querer saber. E isso, boy, é mais twisted do que nunca. 
*E quem leu, sabe que isto não tem a ver com o Conan per se, mas com esta zombielândia feita sociedade a que vulgarmente se chama de Capitalismo Tardio. Que vai ter de acabar? Vai. Quando? Como? A começar por onde? Boas perguntas para zero respostas. Mas eu arrisco uma pista: talvez comece pela tal medida individual que, para todos os efeitos, corresponde a uma cabeça.

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