PNEUMOSE POÉTICA
pendurado o doutorado óculo
veio branco de bata o diagnóstico
: pneumonia principia fonema no peito que chia
embolia distende sucros da pleura
rebeldia armada na manchúria pulmonar
luta do ar trata de não perfurar capilar
e falta-lhe claro
: menina isto foi desagasalho?
: foi domingo doutor em vestido fresco e prado
: agora é o que se vê bouquet d‘alvéolo mirrado
tensão desoxigenada do pulmão inchado
inflamação perinasal muco verdume escarro
tosse gosma e gomo lingual descorado
superior congesto peitoral dolorido sarrido
lenço embebido sensação de peito liquefeito
brônquio encolhido goelas verdes de visco
o olho pisco de vermelho secura das peles
tontura frontal esvaio febril frio possível contágio
pingo ao nariz e essa palidez d’enterro
: para já levará oxigénio em máscara d’elásticos
relaxe ao sopro escute o escuro durma um pouco
: tem alta
na volta siga de botas e lã p’las costas
ligue p'ró serviço a dizer que está doente
e no sossego do quarto cure com ironia o seu estado
dedique versos ao saco de água quente aos lenços usados
ao lençol de flanela ao termómetro ao xarope ao xaile ao chá
aos bolinhos de canela à canja ao ecrã desligado
ao aquecedor a óleo ao gato e ao namorado.
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