quinta-feira, 1 de novembro de 2018

''em baixo da janela, / um rumor de espuma no alcatrão, / chama-te.''

TO A WOMAN OF NO CONSEQUENCE
Tudo continuará depois de ti.
You may seat now and be still,
by the window, now, seat now,
be still by the window, darling,
vê o mundo, vê como continuará
depois,
afasta a cortina:
o teu marido ainda enfia os olhos cheios de dedos
no decote da miúda do segundo andar -
é bem mais nova que a vossa filha,
dela, já as mamas descaíram
depois do segundo, um rapaz,
não voltou ao que era,
mas ninguém volta ao que foi, nem sem filhos
nem de perfeitas mamas se volta,
o marido dela, claro, não sabe disto,
nem lhe joga a mão ao rabo quando ela sobe as escadas à frente dele,
ao menos carregasse os sacos das compras,
plástico tão fino, rasga-se, nem serve para o lixo, e paga-se,
arranja sempre uma desculpa, ele: vai andando à frente, filha,
e fica ao telemóvel ao pé do carro, a vigiar o leasing,
é do escritório, vai andando, é mas é com a do escritório e aí sim,
quando chega a casa, ainda os pacotes de leite por arrumar
e vem fodê-la com a tesão da outra
enquanto os iogurtes esperam o frigorífico.
Vê, continuará igual: o casamento,
o teu e o da tua filha, e a vida
do arrumador de carros, drogado e é filho de um médico,
ainda por cima um psiquiatra, também drogado até à fala,
um filho drogado, o outro esquizofrénico, e ele a dar conta dos filhos dos outros,
a filha mais nova, retirada a analítica moldura, uma cabra, mais puta que as putas,
só com benzodiazepinas, o pai, até à lentificação do desgosto,
dói igual, sempre se sente menos:
todos debaixo do mesmo tecto,
o mesmo sangue, o mesmo pai,
as mesmas horas, a mesma mãe,
as mesmas regras,
as mesmas mãozinhas e refegos bebés cobertos de mil beijos,
e só uma, a mais velha, saíra capaz, nem a vê,
bancos atrás de bancos no Santa Maria,
marido engenheiro, e os miúdos, nem os vê, como os pais, no liceu francês,
todos debaixo do mesmo tecto e isto,
vá-se lá saber o porquê de cada um ser como é.
Da janela, o mundo abarrota nos bolsos do shopping
a carne que as calças de ganga espremem e expulsam pelo cós,
e abarrota nas trufas que hão-de deslizar pelos lábios de botox,
bóias por lábios, mas de peso certo que é dizer abaixo do peso,
bóias bonecas insufláveis, esqueletos protésicos, boca, mamas e cu de borracha,
buracos abertos por onde entrar, escancarados de desespero a cada ano a mais.
E abarrota a rua de gente em urros de vitória no campeonato, em cânticos,
ao menos isso, uma alegria furiosa de caçadores de bisontes regressados.
São finas, tão leves, as cortinas, be still,
são as asas dos anjos da missa que se roçam no teu rosto,
as mesmas que levantaram o cálice quando o vinho se fez sangue
como o das tuas lágrimas, e o padre gritou
cheio de sémem culpado na boca transubstanciada
em sabor a meninos e a horror do mundo.
E assim mesmo, depois de ti,
continuará uma orquestra de tempos perfeitos no trânsito,
be still entre o roçagar das asas, ouve a harmonia:
o regresso a casa
sempre azul
o jantar quente
o filho em pijama
o beijo
a língua húmida
a frescura da laranja
o sonho que se realizou
o som da cápsula da garrafa de cerveja
a conta da luz paga
a página do livro
a mulher que sorri de felicidade
a respiração adormecida do amor
Be very still now, my darling, by the window:
o coração do mundo bate,
fundo como na mais verdejante mata
dentro do teu peito à janela.
De tanta dor, não se consegue viver,
de tanto amor, nem se consegue morrer,
e o mar, darling,
o mar, em baixo da janela,
um rumor de espuma no alcatrão,
chama-te.
Be very still now. Seat now, darling.
*

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