quinta-feira, 22 de novembro de 2018

''Agravo a dor do mundo imaginando-a''


Os verdes anos, Paulo Rocha, 1963



O certo é que a realidade real
difere da realidade pensada.
Os homens não esperam mesmo nada.
Eu é que espero, e esse é todo o mal.

Agravo a dor do mundo imaginando-a;
coro de sangue e febre os olhos distraídos;
construo a voz amarga, implico-a de sentidos,
pisando-a, triturando-a, macerando-a.

O Mundo é corpo. É um corpo sem forma nem limites.
É como corpo, nele,
uns são carne, outros pele,
outros ventre, repleto de apetites,
outros sexo, outros boca, outros retina,
outros músculo tenso e força bruta.
Cada um seu sistema determina.
Cada qual a seu modo se executa.

Mas se um homem ferve
na água em que eu fervo,
coitado, só serve
para fio de nervo.


António Gedeão

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