domingo, 7 de outubro de 2018

sei que não estavas a contar com céu mas

Ladoni, Artur Aristakisian, 1993


sempre tive vontade de te tratar por tu, Quim
mas nunca tratei porque não fui assim ensinada mas
a camaradagem nivelava desde que me sei gente:
passavas-me os livros do Cunhal por debaixo da mesa
para poupar suspiros à minha mãe e
connosco tinhas paciência de avô e
já mulheres feitas ainda dizias: as princesas
grande ideia aqueles teus anos à beira-mar
as Paredes da Vitória a reunir família e marisco
(foram todos) e
um especialíssimo risotto de cogumelos para
a vegetarianice das princesas
ofereci-te chocolates com passas
os teus favoritos e depois das mãos trémulas,
arrastão para corpo inteiro
: eu não vi nada
: eu não vi senão ali
a brancura da bata à pele
a roxidão do ar longe
(...)
acaba por ser isto
o corpo encaracolando e o espírito
agarrando-se ao que é simples
um rosto, um nome, uma minúcia e
a gente seguindo devagarinho
devendo sei lá quê de ânimo ao fim visto de frente
o peso das cabeças arrastando
e a gente a roçar no vazio
a gente já toda no chão
a gente fúnebre
a gente gasta
a gente diminuta
e nem uma palavra possível: Tio Quim
sei que não estavas a contar com céu mas
já o deves ter encontrado
(a alma sobra para depois
só pode, a sério
só pode.)

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