quinta-feira, 25 de outubro de 2018

''A ideia nasce / mas a ideia já nada-morta.''

Design for Living, Ernst Lubitsch , 1933

START UP Rita Natálio
Ontem estava eu no meio de um vendaval de cuecas sujas
quando proclamei: os meus objectivos
são tão claros como a minha falta de objectivos
nivelo-me pelo meio
como qualquer cidadã de metro e meio da Régua.
Sou alpinista de montes e serras de palha
troco arroz por palha
escrevo palha sobre todo o pilim do mundo
pedra sobre pedra, pedra papel tesoura
admito sem pudor e perante todos que não sei
nem quero domar o perlimpimpim do mundo.
Empalhada, empapada, empalada na conversa do psicanalista
começo a ter dificuldades no controlo de psicoventos
ai, a antevisão de todas as ideias é para mim uma câmara ardente
ai, os meus olhos de televisão vidente
vêem passar as carpideiras do real
e com elas limitam-se a carpir
com todo o já-sabido-sentido-lambido
com todo o estertor de um mundo quase vencido.
Conheço e mato,
reconheço e morro.
Reconheço e remato,
reconheço e remôo.
A ideia nasce
mas a ideia já nada-morta.
A ideia nasce
mas todo o século vinte e um
é um post-mortem e um.
Todo o século vinte e um
é um post-hit e um.
Todo o século vinte e um
é um trinta e um.

Por sorte, ainda me resta uma costela de feitante:
vendo esta ideia por dois euros no minipreço
para comprar um euromilhões
e penso na multiplicação do pão
do meu imaginário vão (de escada)
e com sorte, ainda chego a artista doutorada em vazio
e se me perguntarem porquê
responderei: porque preciso de dinheiro para comprar cuecas.

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