quinta-feira, 20 de setembro de 2018

''O jardim mais uma vez''

French Cancan, Jean Renoir, 1955

COMO PREPARAR A MENTE PRO RELÂMPAGO

Nos recantos da mente da mulher
           há um armazém. O armazém
                     está coberto de glicínias. As glicínias se perguntam
o que passa pela mente da mulher.
           A mulher também se pergunta.
                     O rio está bravo esta noite. O rio é um chamado
dorido pela escassez. A mulher anda em sua direção
           os braços firmes e cobertos
                     pelo luar. As glicínias desejam o rio.
E este deseja o armazém na mente
           da mulher, deseja restar em ruínas
                     embora a água seja também um tipo de ruína original
definida na estrutura e imprevisível.
           A mulher desata a luz que há em seu corpo.
                     Vadeia através do rio enquanto as glicínias
                             emaranhadas
sangram de sua boca, de seus olhos, de seus pulsos,
           da válvula cardíaca, do coração. O jardim mais uma vez
                     encobre o corpo – chamado pela água
e carregado pela mulher até a água desejosa.
           Quando ela sangra as glicínias, o armazém
                     em sua mente fica livre e vazio, fonte
de toda vacuidade. Livre para abrigar o céu noturno.
           Livre como a mulher, para sustentar nada
                     além da vasta, vazia e impensável escuridão.

BRYNN SAITO
Tradução de Leandro Durazzo

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