sábado, 14 de julho de 2018

Ronaldo & A Luta de Classes

A NOTÍCIA: 
https://www.publico.pt/2018/07/11/desporto/noticia/contratacao-de-ronaldo-leva-trabalhadores-da-fiat-a-greve-1837659
https://observador.pt/2018/07/12/greve-ronaldo-ainda-nao-chegou-e-a-fiat-ja-parou/ 
https://www.youtube.com/watch?v=oUyosPJRIWM




I. Ainda a Luta de Classes?

Porque é que uma FIAT parou só porque o Ronaldo foi para a Juventus? Porque há corpos cansados de apertar peças repetidamente numa linha de montagem que têm os seus salários congelados por decisão de grupos económicos, entre os quais o liderado por Andrea Agnelli (presidente da Juventus e trineto do inventor da FIAT) que decidiu pagar 100 milhões de euros por um jogador de futebol. 
E de onde sairam estes milhões todos? Em parte, da diferença histórica entre aqueles trabalhadores fabris, à mercê dos que decidem por eles, e o patronato, detentor do poder decisório e dos meios de produção. É a mais-valia. É a luta de classes. Proletariado versus Patronato. Marxismo B-A-BÁ, tal e qual como há cem anos atrás. Em protesto, aquela fábrica da FIAT parou, durante um par de dias, em Melfi. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que, naquilo que importa, estamos exactamente no mesmo lugar. 

“Dizem-nos que o momento é difícil, que devemos recorrer às prestações sociais enquanto esperamos pelo lançamento de novos modelos que nunca chegam. E enquanto os operários e as suas famílias apertam cada vez mais o cinto, os proprietários decidem investir imenso dinheiro num único recurso humano!”, acrescenta o texto da organização sindical, onde se questiona: “Isto é justo? É normal que uma pessoa ganhe milhões e milhares de famílias não consigam chegar ao fim do mês?” “Os operários da Fiat constroem a fortuna dos proprietários há pelo menos três gerações, enriquecem quem anda em torno da empresa, e em troca recebem sempre e somente uma vida de miséria”, lê-se ainda no comunicado, onde se convoca a acção de luta em Melfi. 
VIA JORNAL PÚBLICO




II. Escravatura Moderna 
Como notou Bertrand Russell, o mundo moderno falhou-nos e hoje trabalhar é sermos escravizados por outros, sofrendo dos ‘‘muitos males infligidos pela suposta virtude do trabalho’’. A pobreza sistémica entre as classes trabalhadoras é o mais claro indicador de uma forma de escravatura, intimamente ligada ao ‘‘bonded labour’’, o trabalho obrigatório para pagar as dívidas, empréstimos, prestações ou créditos, que os trabalhadores são obrigados a contrair (face à falta de disponibilidade de bens e capitais próprios) e que, por contrapartida, garantem ao sistema o seu vínculo vitalício ao trabalho [em Portugal (2017), 19,6% por cento dos trabalhadores recebe o salário mínimo, que ronda os 600€]. Já antes do agenciamento global dos sistemas de especulação bancária que controlam o mercantilismo financeiro à escala planetária, a base sine qua non deste sistema era a mesma: a que garantia que os trabalhadores recebiam o mínimo indispensável para viver mas nunca o suficiente para ficarem ricos. 

III. Maquinação Publicitária 
Se a era da ‘‘democratização do consumo’’ traz consigo a dependência aos sistemas bancários, o custo de vida torna-se progressivamente mais elevado mas, se já é árduo acumular esse ‘mínimo indispensável para viver’, a envolvente máquina publicitária tratará de garantir que não desejamos apenas o ‘mínimo indispensável’ e, em cada um, criará necessidades artificiais e ideações consumistas. Esta incapacidade de aceder ou acumular capital próprio resulta, geracionalmente, na fraca ascensão social (a estagnação do chamado elevador social) que Marx diagnosticou. Esta desigualdade vinca as tensões entre os detentores dos meios de produção e os trabalhadores que, na maioria das vezes, são forçados a recorrer ao crédito para adquirir os bens que produzem - como é o caso dos próprios trabalhadores da FIAT.

IV. Fetichismo
E se há quem precise de se endividar para conduzir um FIAT, Ronaldo não quereria um nem dado, prova auto-evidente das economias paralelas que coexistem em interdependência. Se Cristiano Ronaldo é uma brand, um emblema de si próprio, a ser transaccionado por 100 milhões de euros, essa quantia só nos parece obscena por comparação com os valores generalistas: é, no entanto, uma transacção enquadrada pela inflação do meio futebolístico. É um valor demonstrativo da dominação da sociedade do espectáculo sobre a vida, onde Ronaldo é uma estrela ou, diria Marx, um objecto especulativo de valor completamente fetichizado pelo mercado. E enquanto se vendem t-shirts listradas do CR7 aos milhares, estes grupos económicos fazem os seus investimentos estratégicos movimentando somas tão espectaculares que parecem ter perdido completamente a sua relação com o real. Só que dependem dele por base, pirâmides invertidas tão injustas, antigas, óbvias e mastigadas que já nos esquecemos do nosso dever de falar sobre elas (examinar a nossa própria condição à raíz, parecendo que não, aleija).

A SOCIEDADE DO ESPECTÁCULO, Guy Débord, 1973




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