segunda-feira, 30 de julho de 2018

''...ante a incapacidade de esboçar uma crítica minimamente profunda do que é o capitalismo, o BE assume enquanto seu propósito uma regulação estatal dos fluxos de capital...''

''Ricardo Robles faz parte de uma geração de militantes do PSR que deu corpo à formação do Bloco de Esquerda, assumindo as funções necessárias à institucionalização do partido. Nesse processo, essa geração foi ganhando consistência institucional ao mesmo tempo que foi perdendo qualquer réstia de credibilidade juntos dos movimentos sociais e das áreas menos institucionalizadas do próprio BE.
Ainda assim, o que há de mais interessante no Roblesgate não são os defeitos de carácter do indivíduo, circunstanciais ou pessoais, mas precisamente o modo como a situação ilustra os limites e as contradições de um determinado modo de fazer e entender a política. O escândalo relativo à falta de virtudes da "classe política", que percorre o espectro ideológico da extrema-direita à extrema-esquerda, atenta sobretudo nas contradições entre o comportamento de Robles enquanto agente económico individual e a sua função enquanto agente público, e sobretudo na discrepância entre as acções que praticou e o teor da campanha anti-gentrificação e anti-especulação que o elegeu.
Essa contradição existe, e torna-se ainda mais grave quando, ante a incapacidade de esboçar uma crítica minimamente profunda do que é o capitalismo, o BE assume enquanto seu propósito uma regulação estatal dos fluxos de capital, estabelecendo uma distinção moral mais-valia "justa" e outra "injusta", avançando a tese de que a principal contradição do capitalismo é a desigualdade na distribuição dos rendimentos e não a própria natureza das relações sociais produtivas que estabelece. Nesse sentido, para Robles e para o BE, a política é essencialmente o jogo institucional que permite fazer do estado um agente moralizador das relações de produção entre agentes económicos individualizados.
Essa contradição ética entre a política pública e economia pessoal de Robles, no entanto, não se deve à sua fraqueza de carácter. A explicação que encontra os males do mundo na "falta de princípios dos políticos" é essencialmente conservadora, na medida em que reduz as contradições históricas e sociais do capitalismo às pretensas idiossincrasias da natureza humana, ignorando que é o próprio capitalismo a determinar uma série de relações sociais que são depois tidas enquanto "naturais".
Pelo contrário, o Roblesgate é uma expressão cabal dos limites teóricos e políticos do Bloco de Esquerda e das correntes políticas que dentro ou fora dele, mais sociais-democratas ou mais radicais, partilham este mesmo ponto de vista.
O capitalismo não significa apenas uma desigualdade brutal na distribuição da riqueza, ele estabelece, desde logo, enquanto base social, uma determinada forma de produzir riqueza e de distribuir riqueza que obriga cada indivíduo a agir e pensar, antes de mais nada, enquanto agente económico atomizado e individualizado. Ante uma oportunidade de negócio semelhante muitos poucos seriam os que não fariam o mesmo Robles, não por fraqueza de carácter, mas porque no mundo em que vivemos a quantia em questão permitiria resolver inúmeros problemas. Robles e Catarina Martins (e Daniel Oliveira) saberão perfeitamente isto, e por isso assumem que cabe ao estado, e não aos comportamentos individuais, a função moralizadora dos excessos do capitalismo. Escapa-lhes que ao defender uma política centrada nessa moralização institucional dos comportamentos individuais estão também a defender o processo lógico e sistemático que cria, fomenta, organiza e intensifica esses mesmos comportamentos individuais. O Estado não é o garante do bem comum, é antes o dispositivo político e legal que cria e sistematiza a atomização orquestrada dos comportamentos económicos individuais.
Robles não fez nada de mal, porque, apesar de estar a fazer um negócio de milhões ao mesmo tempo que crítica quem saca umas centenas de euros extra no airbnb, o facto de estar a agir individualmente, na sua opinião, o iliba de qualquer responsabilidade, já que para ele caberia única e exclusivamente ao estado a regulação do capitalismo, que a seus olhos é um excesso e não um sistema.
É precisamente esse o limite do BE (e simultaneamente o limite do esquerdismo e de grande parte da crítica que tem sido feita à gentrificação) - Nem o capital é a "anarquia" dos mercados nem a política é a ordenação dessa "anarquia" pelo estado. Por quão lamentável seja a figura de Robles, por quão patética seja esta história, reduzi-la à incoerência de Robles, ou do BE, é perder a oportunidade de perceber que por trás disto não está (apenas) a pobreza ética de Robles mas precisamente a pobreza política e crítica do projecto do Bloco de Esquerda e afins, seja ele mais ou menos coerente consigo próprio.'' 

LUHUNA DE CARVALHO @ Facebook

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