segunda-feira, 14 de maio de 2018

Um forte cheiro a maçã.




Autor: Pedro Eiras

Encenação: Pedro Giestas e Tiago Fernandes
Elenco: Afonso Lagarto; Alice Medeiros; Ana Baptista; Ana Nave; Anabela Caetano; Bruno Bernardo; Cláudia Semedo; Duarte Estrela; Isaac Carvalho; Luís Moreira; Paulo Oom; Pedro Giestas; Sofia Nicholson; Tiago Fernandes


Esperávamos pelo início da peça quando passou à frente do Teatro Amelia Rey Colaço uma procissão inesperada. Em fila, no improvável cenário suburbano, aos escuteirinhos de bandeira em haste seguiu-se o andor, em ombros de homens fardados. Depois vieram os padres. Depois, as velas acesas nas mãos dos caminhantes. Depois, o avé-maria entoado em coro: 
 (...) 
Entramos e a sinfonia familiar começa. A cacofonia de pratos e talheres, as conversas que se sobrepõem, a separação dos que estão juntos porque têm de estar juntos. Rapidamente nos cansamos tanto quanto as personagens se cansam umas das outras. Sentimos no corpo e na cabeça a fadiga daqueles encontros familiares em que todos gostavam que os outros fossem diferentes. Não ficamos em choque por Elias querer morrer - afinal, ele é o único lúcido. Não ficamos em choque por ninguém se ralar por Elias querer morrer - afinal, isso não muda em nada a vida deles. O que nos deixa em choque, súbito como um chapadão que veio do escuro, é a hipótese de que nós próprios não faríamos falta a esse nosso sangue celebrado a que se chama família. Vamos sem ar, já. ‘‘Já é tarde’’ para nós. Demasiado tarde. Já não temos a adolescência de Elias para uma partida preventiva, para uma saída de alma a hora digna. Os ritos sanguíneos são cruéis. Cheira a maçãs trincadas. Não se escapa ao ar nauseabundo. (Com mais perguntas do que respostas, saí indisposta como quem acabou de despertar entre fúrias e ribombas… Apetecia-me o primeiro álcool que me afundasse na cama. Apetecia-me que pudéssemos crescer tudo até que, um dia, dispensassemos as mães de o ser. Apetecia-me que os Smiths não fossem tão precisos a perfurar. Apetecia-me que rigorosamente tudo pudesse mudar um dia, mesmo que já não esteja cá para ver.)

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